No dia de hoje, 15 de março

PARA QUE NÃO SE ESQUEÇA, PARA QUE NUNCA MAIS SE REPITA

No dia de hoje, 15 de março, o ex-militar Manoel Raimundo Soares faria 84 anos. Seria certamente um veterano de guerra e mereceria todas as honrarias militares, se a ala legalista  das Forças Armadas, à qual ele pertencia, não tivesse sucumbido à ala golpista que se perpetuou nas forças de segurança. O único título que o Sargento Manoel recebeu foi o de “Caso das Mãos Amarradas”, porque seu corpo foi encontrado no dia 24 de agosto de 1966, com as mãos e os pés atados às costas, boiando no Rio Jacuí nas proximidades de Porto Alegre/RS.

Manoel Raimundo deixou claro, desde antes do golpe, que era contrário à movimentação interna que havia pela deposição do presidente eleito, assim como fizeram vários outros agentes. Agentes como o Coronel Alfeu de Alcântara Monteiro, aviador da Força Aérea Brasileira, que foi morto a tiros no próprio quartel-general em que trabalhava, em Canoas (RS), no dia 04 de abril de 1964, dias após o golpe civil-militar.

A morte do Coronel Alfeu foi abafada no noticiário, que informou ter havido troca de tiros, quando ele resistiu à ordem de prisão que recebeu de seu comandante. Mas não foi possível ocultar o “Caso das Mãos Amarradas”, pois ele gerou grande comoção em razão da crueldade estampada naquele corpo. O enterro de Raimundo foi acompanhado por uma pequena multidão e foram instaurados uma CPI e um Inquérito Policial.

Apurou-se que o Sargento Manoel Raimundo foi preso em 11 de março de 1966, pela Companhia de Polícia do Exército, onde começaram as sessões de espancamento. Posteriormente, Manoel foi entregue ao DOPS/RS com a recomendação de que só poderia ser solto por ordem da mesma Polícia do Exército. No DOPS, foi submetido a novas torturas até que no dia 19 de março foi transferido para a ilha presídio existente no Rio Guaíba. Segundo depoimentos, ele era diariamente torturado, foi colocado várias vezes no pau de arara, sofreu choques elétricos, espancamentos e queimaduras por pontas de cigarros. Em 13 de agosto foi novamente recambiado para o DOPS e, em 24 de agosto, cinco meses depois de sua prisão, seu corpo foi encontrado no rio.

A necrópsia do cadáver indicou múltiplas marcas de tortura e que Manoel faleceu entre os dias 13 e 20/8/1966, quando, amarrado, foi submetido a “caldo” ou afogamento.

Uma possível explicação para esse grau de violência é o fato de que, por ser um militar, era preciso fazê-lo de exemplo para os demais que não pactuassem com o novo regime.

O tempo passou, os militares adeptos do golpe deixaram o governo e a Comissão de Anistia indenizou e reintegrou milhares de outros militares afastados e punidos naquele período. Aliás, 1/3 das pessoas indenizadas pela Comissão de Anistia é de ex-militares ou de aspirantes. Mas esse grupo é tratado com escárnio e como uma subcategoria, sem os mesmos direitos que outros militares da reserva. Muitos sofreram sérios danos psicológicos e não tinham nenhuma noção política sobre o que ocorria na época. Por isso, sempre tiveram dificuldades em assimilar a sua não aceitação pelas Forças Armadas que tanto admiravam, conforme relataram às Clínicas dos Testemunhos, hoje extintas.

Essa quantidade de exclusões dos quadros militares e o perfil dos oficiais que hoje se vê na ativa comprovam que as forças de segurança passaram por uma verdadeira limpeza ideológica. Isso talvez explique a forma banal com que as Forças Armadas e as Polícias tratam a tortura, os direitos humanos e a própria ditadura. Talvez explique os fatos de que a) os homenageados por tais instituições a partir de 1964 sejam pessoas que, na verdade, praticaram crimes gravíssimos até mesmo contra civis; b) de terem deixado pessoas como o Sargento Manoel nas águas do esquecimento.

–  Manoel Raimundo Soares, presente!

__________________

Este texto faz parte da campanha de divulgação da II Caminhada do Silêncio pelas Vítimas de Violência do Estado e pela Democracia que será realizada em São Paulo/SP, no dia 29/03/2020, no Parque do Ibirapuera, e é uma adaptação do texto já utilizado por ocasião da divulgação da I Caminhada, realizada no ano passado.

Autoria: Eugênia Augusta Gonzaga, procuradora regional da República, mestre em Direito Constitucional e coautora das primeiras iniciativas de responsabilização de agentes da ditadura.

Fonte: Relatório Final da Comissão Nacional da Verdade, Volume III, páginas 205 a 211.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

%d blogueiros gostam disto: