No dia de hoje, 07 de março

PARA QUE NÃO SE ESQUEÇA, PARA QUE NUNCA MAIS SE REPITA 

Em 07 de março de 1966, o negro e trabalhador rural, Amaro Félix Pereira, que foi dirigente das Ligas Camponesas de Pernambuco, saía da prisão no DOPS, em Recife/PE, onde tinha ficado detido por três dias, acusado de promover “agitação nas eleições do sindicato de Barreiros”, pois ousou formar uma chapa para disputar a presidência do sindicato da sua categoria.

Amaro Félix Pereira nasceu no ano de 1929, na cidade de Rio Formoso, também situada na zona canavieira sul de Pernambuco. Trabalhou em plantações, limpa, corte e cambitagem de cana-de-açúcar, desde criança, sendo que, por quase toda a vida, dedicou-se apenas à Usina Central do Município de Barreiros/PE. Nos últimos temos em que lá trabalhou, havia sido escalado para trabalhar na operação do maquinário da usina, diretamente na produção do açúcar. Aos 34 (trinta e quatro) anos filiou-se ao Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Barreiros, passou a militar no Partido Comunista Revolucionário (PCR) e exerceu grande liderança entre os trabalhadores rurais da região.

Era casado com Maria Júlia Pereira, com quem teve dez filhos. Amaro sempre soube que o fato de ser negro intensificaria ainda mais a perseguição política que sofria. Uma vez disse a companheiros de prisão: “Vocês são brancos, vocês vão sair daqui. Eu não vou sair vivo.”

Acusado de praticar “atividades subversivas”, foi preso pela primeira vez em 1964, em sua residência, quando presenciou sua esposa ser violentada por policiais, o que provocou um aborto. Espancado e algemado, foi encaminhado para a delegacia do DOPS, em Recife (PE), sem poder auxiliar e sem receber qualquer notícia da esposa machucada no corpo e na alma, de tanta humilhação. Na delegacia, preso e incomunicável, foi brutalmente torturado no período em que permaneceu detido.

Foi liberado dessa primeira prisão em 7 de maio de 1964. Voltou a trabalhar e, como dito no início, foi severamente punido em 1966 por querer se candidatar à presidência do Sindicato dos Trabalhadores Rurais do Município de Barreiros. A sua chapa foi cassada pelo advogado da usina, sem nenhuma justificativa legal, na véspera da eleição, porque houve uma ampla adesão dos trabalhadores da usina e dos engenhos à chapa. Ao receber a notícia da cassação arbitrária, Amaro passou a avisar os trabalhadores sobre a grave injustiça que estava ocorrendo e a orientar aqueles que votariam na chapa da oposição para que anulassem seus votos, pois só assim seria possível forçar a convocação de uma nova eleição. Então a cúpula dominante conseguiu que ele fosse detido e deslocado para o DOPS em Recife com o objetivo de impedir esta mobilização. A eleição aconteceu, portanto, com chapa única e sob o controle da polícia e de capatazes da usina.

Ao sair da prisão nesse dia 07 de março, mesmo tendo perdido o emprego e a casa, que pertencia à Usina, Amaro não se intimidou. Já havia se transformado em um dirigente da classe trabalhadora tanto no terreno sindical quanto político o suficiente para enfrentar as adversidades do regime ditatorial. A mesma base dos operários da usina se lançou com Amaro em mais um desafio: disputar uma cadeira na Câmara de vereadores de Barreiros em novembro de 1966, pelo único partido de oposição, então, existente, o MDB. As bandeiras da candidatura de Amaro eram: a) denunciar a exploração, a opressão, as perseguições, sumiços e assassinatos dos companheiros, a mando de usineiros, senhores de engenho em como acordo com agentes da ditadura militar; b) a defesa da liberdade de organização dos trabalhadores; c) a conquista da democracia e da soberania nacional. A falta de recursos e o elevado coeficiente eleitoral não permitiu sua eleição, mas a campanha de denúncia dos crimes dos poderosos, a agitação política pelo fim da ditadura e por uma democracia efetiva marcaram para sempre aquelas eleições de Barreiros.

Amaro tornou-se ainda mais perseguido e suas chances de ter um emprego formal eram nulas. Vagou com sua família pelo interior do Estado, mas não deixou de lutar ao lado de outros trabalhadores por melhores condições de vida. Novamente acusado de exercer atividades subversivas, Amaro Félix foi preso em 29 de novembro de 1969, quando foi mais uma vez barbaramente torturado no interior do comando do IV Exército, depois na sede do DOPS, na rua da Aurora, sem nada informar aos carrascos. Na sequência foi levado para a Casa de Detenção do Recife, de onde foi liberado apenas em 24 de novembro de 1970, conforme documento obtido na ABIN.

Amaro passou então a seguir, disciplinadamente, as rigorosas normas de segurança da clandestinidade para poder sobreviver e   continuar lutando pela libertação do seu povo. Ele não podia mais se apresentar em nenhuma cidade onde era conhecido ou mesmo em uma simples feira de qualquer povoado. Mas sempre encontrava um jeito seguro de fazer as reuniões com seus companheiros, e nunca perder o contato com a direção do seu partido. Assim, nunca mais foi visto nos locais públicos, como as reuniões das oposições sindicais, sede de sindicatos progressistas, nem nas reuniões do polo da zona canavieira sul (Ribeirão/PE) da Federação dos Trabalhadores Rurais de Pernambuco (FETAPE).  

Mas a repressão tinha seus modos de descobrir o paradeiro de alguém tão indesejado. Depois de várias prisões em vão de Amaro Félix, eles passaram a temer a liderança e o carisma daquele experiente comunista revolucionário, ex-dirigente das Ligas Camponesas, bem como o grau de influência que tinha o seu partido, o PCR, na época, junto às massas de trabalhadores da indústria sucroalcooleira na região do nordeste. Amaro Félix tinha que ser eliminado. Essa foi a decisão tomada pelo Exército, DOPS e  usineiros da Mata sul de Pernambuco. Não houve escapatória. No procedimento aberto na Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos(CEMDP) consta que ele foi visto pela última vez em um jipe de placa branca, deitado debaixo do banco, já falecido, amarrado por correntes, sendo escoltado por policiais. A família ouviu relatos de que o corpo de Amaro teria sido jogado dentro da chaminé da usina ou na correnteza do rio Una, que corta a cidade de Barreiros e corre em direção ao mar. 

Como de costume, a repressão responsável por esse macabro roteiro cinematográfico, sempre fugiu de sua responsabilidade do crime cometido jogando areia nos olhos da família, de seus companheiros e amigos. Não se sabe o paradeiro do corpo nem mesmo a data aproximada da morte. Todavia, os ideais generosos de Amaro Félix Pereira de lutar por uma nova sociedade de justiça e igualdade de oportunidade para todos e todas jamais morrerão, pelo contrário, seu nome, sua história é, hoje, fonte de inspiração e de exemplo para as novas gerações de brasileiros que lutam por mundo de justiça e paz social.

– Amaro Félix Pereira, presente! 

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Este texto faz parte da campanha de divulgação da II Caminhada do Silêncio pelas Vítimas de Violência do Estado e pela Democracia que será realizada em São Paulo/SP, Parque do Ibirapuera, Recife, no Marco Zero, Salvador e Rio de janeiro, todos no dia 29/03/2020, e também foi utilizado por ocasião da divulgação da I Caminhada. 

Autoria: Eugênia Augusta Gonzaga, procuradora regional da República, mestre em Direito Constitucional e coautora das primeiras iniciativas de responsabilização de agentes da ditadura.

Fonte: Relatório Final da Comissão Nacional da Verdade, Volume III, páginas 791 a 794.

Colaboração: Edival Nunes Cajá, do Centro Cultural Manuel Lisboa, instituição que há 30 anos cuida da memória dos mortos e desaparecidos políticos do PCR.

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