NO DIA DE HOJE, 6 DE MARÇO

PARA QUE NÃO SE ESQUEÇA, PARA QUE NUNCA SE REPITA

Em 06 de março de 2020, Dimas Antônio Casemiro, nascido em Votuporanga/SP, na Fazenda Marinheiro, se ainda estivesse vivo, completaria 74 anos.

Se ainda estivesse vivo, ele teria visto o seu filho Fabiano crescer e se tornar também um exemplar trabalhador, marido e pai. Dimas teria acompanhado o nascimento de seus netos e brincado muito com eles, rolando no chão de casa, assim como fazia com seu filho, nos poucos períodos de paz que tinha, sonhando em construir um Brasil melhor, com menos desigualdades sociais.

Assim como centenas de outros jovens brasileiros nos anos 60 e 70, Dimas deixou sua vida privada para juntar-se a movimentos de resistência à ditadura militar. Ele chegou a pegar em armas nessa luta. Certa ou errada a sua decisão, no lugar de ser preso e julgado conforme as leis vigentes, foi fuzilado em 17 de abril de 1971, em frente à sua casa, no bairro do Ipiranga, em São Paulo/SP.

Segundo apurou a Comissão sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP), Dimas sobreviveu aos tiros e foi ainda submetido a tortura por dois dias, para entregar informações. No dia 18 de abril, foi noticiado falsamente que ele havia morrido em confronto armado. De fato, seu corpo só deu entrada no IML às 14 horas do dia 19 de abril.

Tendo em vista o “modus operandi” da repressão para ocultação de seus crimes, a família de Dimas não pôde fazer o seu enterro. Sequer teve acesso ao corpo. Ele foi enterrado como indigente, no Cemitério de Perus. Em 1975, junto a outros milhares de remanescentes ósseos, seu corpo foi transferido para uma vala comum e clandestina.

A vala de Perus foi aberta apenas em 1990, mas os trabalhos de identificação não foram desenvolvidos a contento e logo foram paralisados. Em 2014, quando foi instituído o Grupo de Trabalho Perus (GTP), por iniciativa da Prefeitura de São Paulo, da Unifesp e do então Ministério de Direitos Humanos, as ossadas de Perus passaram a ser analisadas por profissionais especializados.

Na manhã do dia 07 de fevereiro de 2018, Thomas Parsons, diretor de Ciência e Tecnologia da International Comission on Missing Persons (ICMP) – cuja Instituição fez parceria com a CEMDP para a realização dos exames de DNA-, entregou em São Paulo um envelope ao GTP contendo os resultados de compatibilidade genética entre os remanescentes ósseos da caixa GTP-0623 e os familiares de Dimas Casemiro que haviam doado amostras para exames de DNA. No mesmo dia, o Comitê de Identificação e o Comitê Científico do GTP, coordenado por Samuel Ferreira, perito médico-legista e geneticista forense, abriram a caixa para realizar a análise e conferência das informações sobre as características físicas de Dimas. A análise confirmou que aquele esqueleto conferia com as características de Dimas, no tocante à estatura, sexo, idade e lesão na mandíbula, causada por projétil de arma de fogo. Dimas Casemiro estava finalmente identificado.

A entrega do corpo à família ocorreu em Votuporanga/SP, no dia 30 de agosto de 2018, Dia Internacional das Vítimas de Desaparecimentos Forçados, em ocasião solene e com honras funerárias. Nesse dia, Fabiano Casemiro finalmente pôde dizer: “não sou mais o filho de um desaparecido político”.

– Dimas Antôno Casemiro, presente!


Este texto faz parte da campanha de divulgação da II Caminhada do Silêncio pelas Vítimas de Violência do Estado e pela Democracia que será realizada em São Paulo/SP, no dia 29/03/2020, no Parque do Ibirapuera, e também foi utilizado por ocasião da divulgação da I Caminhada.

Autoria: Eugênia Augusta Gonzaga, procuradora regional da República, mestre em Direito Constitucional e coautora das primeiras iniciativas de responsabilização de agentes da ditadura.

Fonte: Relatório Final da Comissão Nacional da Verdade, Volume III, páginas 590 a 594.

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