NO DIA DE HOJE, 2 DE MARÇO

PARA QUE NÃO SE ESQUEÇA, PARA QUE NUNCA MAIS SE REPITA

2 de março de 1971 é a data da única carta enviada por José Júlio de Araújo à sua família durante os três anos em que foi obrigado a viver na clandestinidade:

“Minha querida mãe, espero que me perdoe por não ter escrito antes, afinal faz tanto tempo que não nos vemos e eu sinto muito por isto. Minha vontade é estar junto de você e de todos. Mas que posso fazer? Você sabe que é a pessoa a quem eu mais quero, por tudo que fez por mim e por meus irmãos. Espero que compreenda que quando não escrevo é porque não posso. Apesar dos problemas que eu trouxe para você, por favor, seja feliz. Eu nunca poderia retribuir tanto carinho que você dedicou a mim. Apesar de todos os problemas que tiveram por minha causa, eu pediria ao Vinícius e Marcinho que visitassem meus amigos que estão presos em Juiz de Fora, e que lhes levassem cigarros e doces que fazem muita falta para quem está em uma prisão. Eu ficaria eternamente agradecido se meus irmãos pudessem praticar este ato de solidariedade humana.”

José Júlio de Araújo nasceu em 22 de julho de 1943, em Itapecerica (MG). Trabalhou desde os 14 anos e logo se filiou ao PCB (Partido Comunista Brasileiro), do qual se desligou em 1967 para fundar a Corrente Revolucionária, dissidência do PCB formada em Minas Gerais, que se fundiu, em 1969, à ALN (Ação Libertadora Nacional).

Sua militância ostensiva desde tenra idade fez dele uma pessoa suspeita e procurada. Chegou a ficar um ano em autoexílio no Chile, em 1971, e fez treinamento de guerrilha em Cuba. De volta ao Brasil, em 1972, não demorou muito para que fosse localizado e preso com sua companheira Valderês Nunes Fonseca, no dia 18 de agosto de 1972.

Eles estavam em um bar, na rua Domingos de Moraes, na Vila Mariana, em São Paulo/SP, quando receberam voz de prisão da equipe do Doi/Codi/SP, então chefiado por Carlos Alberto Brilhante Ustra. José Júlio tentou reagir e entrou em luta corporal com os agentes, acabando ferido por uma coronhada na cabeça. Foram ambos levados para a famigerada delegacia da rua Tutóia.

No dia 22 de agosto de 1972, foi publicado no Diário da Tarde, o seguinte: “Terrorista volta de Cuba para morrer em São Paulo” em “violento tiroteio”, na rua Teodoro Sampaio, próximo ao Instituto Médico-Legal.

Mas, segundo o depoimento de Valderês prestado em 1996 à Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, eles ficaram presos naquele dia 18 e foram torturados e interrogados ininterruptamente, por duas equipes diferentes. Na madrugada do dia 19 de agosto, Valderês foi transferida para uma sala (provavelmente a que José Júlio tinha sido interrogado) onde se encontravam todas as roupas com as quais José Júlio havia sido preso, algumas peças rasgadas, outras ensanguentadas e ela não soube nada mais a respeito de seu companheiro.

Essa conduta era típica da repressão: interrogavam sob tortura e, quando o preso já estava morto ou não aguentava mais, descartavam o corpo na rua em uma cena simulada de tiroteio. O capítulo seguinte consistia em driblar as famílias para que não tivessem acesso aos corpos.

A família de José Júlio conseguiu localizar o seu corpo, mas a sua dor não foi menor por causa disso. Souberam da morte dele com base na notícia do jornal e que foi enterrado como indigente no Cemitério Dom Bosco, bairro de Perus, em São Paulo/SP, mas só puderam resgatar o corpo, clandestinamente, em 1975. Foi o irmão Márcio quem veio a São Paulo, fez o reconhecimento do corpo, mas não pôde levar imediatamente para enterrar em um cemitério por falta de documentos. Márcio decidiu então esconder os restos mortais no sótão da casa e, para não aumentar o sofrimento dos pais, mentiu para eles dizendo que havia enterrado José Júlio em outro cemitério de São Paulo/SP.

Consumido pela depressão, Márcio suicidou-se em 1976. Algum tempo depois, a mãe descobriu os ossos de José Júlio e decidiu manter o segredo, mas a ossada foi descoberta por um encanador que denunciou o fato à polícia. Isto fez com que a mãe e a irmã de José Júlio fossem indiciadas por ocultação de cadáver.

Esse inquérito ao menos teve um resultado positivo: os ossos foram submetidos a perícia, que constatou que eram mesmo de José Júlio de Araújo e permitiu que a versão oficial de morte em tiroteio fosse confrontada. Foi detectada uma marca de projétil de arma de fogo indicando que o tiro foi desferido de frente e de cima para baixo, no crânio, o que indica execução e não tiroteio em perseguição. O inquérito de ocultação de cadáver contra a família foi arquivado e ela pôde finalmente fazer o sepultamento digno de José Júlio em 6 de novembro de 1993.

– José Júlio de Araújo?

– Presente!

Este texto faz parte da campanha de divulgação da II Caminhada do Silêncio pelas Vítimas de Violência do Estado e pela Democracia que será realizada em São Paulo/SP, no dia 29/03/2020, no Parque do Ibirapuera.

Autoria: Eugênia Augusta Gonzaga, procuradora regional da República, mestre em Direito Constitucional e coautora das primeiras iniciativas de responsabilização de agentes da ditadura

Fonte: Relatório Final da Comissão Nacional da Verdade, Volume III, páginas 1.002 a 1.007.

3 comentários em “NO DIA DE HOJE, 2 DE MARÇO

  1. Caros, estamos juntos na adesão e divulgação o movimento. No ultimo “Arte contra a Barbárie” apresentei, a convite da organização, meu poema “Prece aos mártires” que nomeia os desaparecidos/mortos pela ditadura, numa espécie de prece laica. Fico a disposição e coloco este trabalho a disposição do movimento/ato. Posso enviar o texto, se desejarem, que também pode ser visto aqui, em forma de video: https://www.facebook.com/ElcioFonsecaPoesia/videos/760471734439927/
    Saudações democráticas.

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