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NO DIA DE HOJE, 2 DE MARÇO

PARA QUE NÃO SE ESQUEÇA, PARA QUE NUNCA MAIS SE REPITA

2 de março de 1971 é a data da única carta enviada por José Júlio de Araújo à sua família durante os três anos em que foi obrigado a viver na clandestinidade:

“Minha querida mãe, espero que me perdoe por não ter escrito antes, afinal faz tanto tempo que não nos vemos e eu sinto muito por isto. Minha vontade é estar junto de você e de todos. Mas que posso fazer? Você sabe que é a pessoa a quem eu mais quero, por tudo que fez por mim e por meus irmãos. Espero que compreenda que quando não escrevo é porque não posso. Apesar dos problemas que eu trouxe para você, por favor, seja feliz. Eu nunca poderia retribuir tanto carinho que você dedicou a mim. Apesar de todos os problemas que tiveram por minha causa, eu pediria ao Vinícius e Marcinho que visitassem meus amigos que estão presos em Juiz de Fora, e que lhes levassem cigarros e doces que fazem muita falta para quem está em uma prisão. Eu ficaria eternamente agradecido se meus irmãos pudessem praticar este ato de solidariedade humana.”

José Júlio de Araújo nasceu em 22 de julho de 1943, em Itapecerica (MG). Trabalhou desde os 14 anos e logo se filiou ao PCB (Partido Comunista Brasileiro), do qual se desligou em 1967 para fundar a Corrente Revolucionária, dissidência do PCB formada em Minas Gerais, que se fundiu, em 1969, à ALN (Ação Libertadora Nacional).

Sua militância ostensiva desde tenra idade fez dele uma pessoa suspeita e procurada. Chegou a ficar um ano em autoexílio no Chile, em 1971, e fez treinamento de guerrilha em Cuba. De volta ao Brasil, em 1972, não demorou muito para que fosse localizado e preso com sua companheira Valderês Nunes Fonseca, no dia 18 de agosto de 1972.

Eles estavam em um bar, na rua Domingos de Moraes, na Vila Mariana, em São Paulo/SP, quando receberam voz de prisão da equipe do Doi/Codi/SP, então chefiado por Carlos Alberto Brilhante Ustra. José Júlio tentou reagir e entrou em luta corporal com os agentes, acabando ferido por uma coronhada na cabeça. Foram ambos levados para a famigerada delegacia da rua Tutóia.

No dia 22 de agosto de 1972, foi publicado no Diário da Tarde, o seguinte: “Terrorista volta de Cuba para morrer em São Paulo” em “violento tiroteio”, na rua Teodoro Sampaio, próximo ao Instituto Médico-Legal.

Mas, segundo o depoimento de Valderês prestado em 1996 à Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, eles ficaram presos naquele dia 18 e foram torturados e interrogados ininterruptamente, por duas equipes diferentes. Na madrugada do dia 19 de agosto, Valderês foi transferida para uma sala (provavelmente a que José Júlio tinha sido interrogado) onde se encontravam todas as roupas com as quais José Júlio havia sido preso, algumas peças rasgadas, outras ensanguentadas e ela não soube nada mais a respeito de seu companheiro.

Essa conduta era típica da repressão: interrogavam sob tortura e, quando o preso já estava morto ou não aguentava mais, descartavam o corpo na rua em uma cena simulada de tiroteio. O capítulo seguinte consistia em driblar as famílias para que não tivessem acesso aos corpos.

A família de José Júlio conseguiu localizar o seu corpo, mas a sua dor não foi menor por causa disso. Souberam da morte dele com base na notícia do jornal e que foi enterrado como indigente no Cemitério Dom Bosco, bairro de Perus, em São Paulo/SP, mas só puderam resgatar o corpo, clandestinamente, em 1975. Foi o irmão Márcio quem veio a São Paulo, fez o reconhecimento do corpo, mas não pôde levar imediatamente para enterrar em um cemitério por falta de documentos. Márcio decidiu então esconder os restos mortais no sótão da casa e, para não aumentar o sofrimento dos pais, mentiu para eles dizendo que havia enterrado José Júlio em outro cemitério de São Paulo/SP.

Consumido pela depressão, Márcio suicidou-se em 1976. Algum tempo depois, a mãe descobriu os ossos de José Júlio e decidiu manter o segredo, mas a ossada foi descoberta por um encanador que denunciou o fato à polícia. Isto fez com que a mãe e a irmã de José Júlio fossem indiciadas por ocultação de cadáver.

Esse inquérito ao menos teve um resultado positivo: os ossos foram submetidos a perícia, que constatou que eram mesmo de José Júlio de Araújo e permitiu que a versão oficial de morte em tiroteio fosse confrontada. Foi detectada uma marca de projétil de arma de fogo indicando que o tiro foi desferido de frente e de cima para baixo, no crânio, o que indica execução e não tiroteio em perseguição. O inquérito de ocultação de cadáver contra a família foi arquivado e ela pôde finalmente fazer o sepultamento digno de José Júlio em 6 de novembro de 1993.

– José Júlio de Araújo?

– Presente!

Este texto faz parte da campanha de divulgação da II Caminhada do Silêncio pelas Vítimas de Violência do Estado e pela Democracia que será realizada em São Paulo/SP, no dia 29/03/2020, no Parque do Ibirapuera.

Autoria: Eugênia Augusta Gonzaga, procuradora regional da República, mestre em Direito Constitucional e coautora das primeiras iniciativas de responsabilização de agentes da ditadura

Fonte: Relatório Final da Comissão Nacional da Verdade, Volume III, páginas 1.002 a 1.007.

No dia de hoje, 31 de março

No dia de hoje, aos 56 anos do Golpe Civil-militar no Brasil, faço uma homenagem aos desaparecidos na região do Araguaia. O rio e a terra carregam a história em cada cena, onde existe um pouco de nossos entes queridos também. Não só a paisagem, mas alguns arquivos e pessoas guardam segredos que buscamos há anos! Não tivemos ainda o direito de sepultar nossos irmãos! Onde estão?

Texto escrito por Sônia Haas, irmã de João Carlos Haas Sobrinho (Dr Juca) para a Vigília pela Democracia.

*Foto de Antonio Viana (a quem agradeço por sempre alimentar a minha alma com fotos belíssimas da região)

No dia de hoje, 30 de março

30 de março é dia do nascimento de um personagem secular, Carlos Schirmer, em 1896, no Século XIX, portanto. Ele foi mais uma das pessoas mortas pela ditadura militar, tendo sido alcançado na pacata cidade de Divinópolis/MG.

Carlos Schirmer nasceu em Além Paraíba (MG). Seu pai, engenheiro de origem austríaca, veio ao Brasil a convite de Dom Pedro II, para trabalhar na obra de uma estrada de ferro em Baturité, no estado cearense; uma das primeiras ferrovias do país.

Carlos viveu parte de sua vida no interior de São Paulo, onde a família possuía uma propriedade cafeicultora. Porém, em decorrência do fim do ciclo do café, mudaram-se para o Rio de Janeiro em busca de novas oportunidades. Na capital carioca, ingressou no ramo da eletricidade, aperfeiçoando-se em montar usinas hidrelétricas, e passou a atuar no Partido Comunista, desde os primeiros anos de existência do grupo. Casou-se duas vezes. Teve dois filhos, sendo o mais velho chamado Luiz Carlos, em homenagem à principal liderança do PCB; e a mais nova, Silvia Schirmer, nascida do segundo casamento.

Apenas um mês depois do golpe civil-militar no Brasil, Schirmer, que era visado pela sua participação ostensiva no PCB, foi vitimado pela violência do Estado. Na manhã do dia 1º de maio de 1964, ele foi surpreendido em sua casa, na pequena cidade mineira de Divinópolis, por agentes a mando do coronel Melquíades Horto. Eles precisavam cumprir a ordem de conduzir Schirmer à delegacia, nem que precisasse ser a força. Como sempre, não tinham mandado judicial para fazer isso. Schirmer se contrapôs à prisão. Sua casa foi então invadida.

Houve um tumulto com disparos de tiros. Carlos Schirmer foi baleado. Tentou se esconder, mas foi capturado. Assim, ferido, foi brutalmente conduzido para o hospital, onde deveria passar por uma cirurgia para extração da bala. Mas a má vontade dos profissionais de saúde, talvez constrangidos pelos policiais, fez com que demorassem demasiadamente para fazer a cirurgia e Carlos Schirmer não resistiu. Como sempre, a versão divulgada à época relatava que Carlos teria se suicidado.

A história de Carlos Schirmer é mais uma que demonstra que a repressão da ditadura derramou sangue desde os primeiros momentos de sua existência, nas capitais ou no interior, mas tudo foi mantido sob severo sigilo. E assim se manteve, por décadas, deixando uma chaga na história nacional e permitindo que a violência do Estado continue se repetindo.

– Carlos Schirmer, presente!

* Este texto faz parte da campanha de divulgação da II Caminhada do Silêncio pelas Vítimas de Violência do Estado e pela Democracia que foi suspensa e será substituída por atos realizados em meio virtual nos dias 31 e 1º de abril de 2020.

Responsável: Eugênia Augusta Gonzaga, procuradora regional da República, mestre em Direito Constitucional e coautora das primeiras ações judiciais contra agentes da ditadura.

Fontes: Relatório Final da CNV e DMV/CEMDP.

No dia de hoje, 27 de março

No dia 27 de março de 1998, foi publicado no Diário Oficial da União, o reconhecimento oficial de Zuzu Angel como vítima da ditadura.

“Eu não tenho coragem. Coragem tinha meu filho. Eu tenho legitimidade” costumava dizer Zuzu Angel.

Zuleika Angel Jones, estilista mundialmente conhecida, faleceu no dia 14 de abril de 1976 em um acidente no túnel Dois Irmãos, no Rio de Janeiro; desfecho trágico de sua intensa trajetória de luta em busca de notícias acerca do paradeiro de seu filho, Stuart Edgar Angel Jones, desaparecido após sua prisão em 1971.

Desde que o filho foi preso, Zuzu se movimentou incansavelmente, dentro e fora do País, à procura de informações. Zuzu denunciava os bárbaros crimes do Estado brasileiro onde quer que estivesse, com discursos em locais públicos, por meio de sua arte, nos desfiles que promovia, e por meio de audiências com autoridades estadunidenses. A ditadura militar brasileira passou então a monitorar seus passos e ela começou a receber ameaças.

Em 1975, a estilista escreveu uma correspondência com detalhes sobre tais ameaças e a entregou a alguns amigos próximos. No ano seguinte, Chico Buarque compôs em sua homenagem a canção Angélica: “Quem é essa mulher que canta sempre esse estribilho, só queria embalar meu filho…” A sua luta e as ameaças que sofria já eram de amplo conhecimento. No mesmo ano, em 1976, ocorreu a fatalidade, primeiramente documentada como acidente.

Somente em 1996, após esforços da família, foram realizados novos trabalhos periciais, que indicaram imprecisões nas conclusões anteriores acerca do caso. Dois anos depois, a CEMDP assumiu que o óbito de Zuleika configurou um crime cometido pelo Estado brasileiro. Em 2014, a CNV coletou outros documentos, inclusive do Departamento de Estado dos EUA, e ratificou a conclusão de assassinato.

– Zuzu Angel, presente!

* Este texto faz parte da campanha de divulgação da II Caminhada do Silêncio pelas Vítimas de Violência do Estado e pela Democracia que será realizada em São Paulo/SP, no dia 29/03/2020, no Parque do Ibirapuera, que foi suspensa e será substituída por atos realizados em meio virtual nos dias 31 e 1º de abril de 2020.

Responsável: Eugênia Augusta Gonzaga, procuradora regional da República, mestre em Direito Constitucional e coautora das primeiras ações judiciais contra agentes da ditadura.

Fontes: Relatório Final da CNV e DMV/CEMDP

No dia de hoje, 26 de março

Em 26 de março de 1965 eclodiu um dos mais importantes movimentos entre os militares de resistência ao golpe de 1964: a Guerrilha de Três Passos, no noroeste do Rio Grande do Sul. Inconformados com a sujeição aos golpistas, militares legalistas fizeram uma tentativa de desencadeamento de reação da população gaúcha contra o regime militar, às vésperas deste completar seu primeiro aniversário.

Desde 1961, havia nas Forças Armadas um movimento de resistência ao golpe – que depois se chamaria Movimento 26 de março ou MR-26. Com a efetivação do golpe, alguns de seus integrantes, sob liderança do Sargento Alberi Vieira dos Santos, foram obrigados a se refugiar no Uruguai. A partir do apoio do ex-governador Leonel Brizola e da adesão de outros grupos também refugiados no Uruguai, liderados pelo Sargento Firmo Chaves e pelo coronel Jefferson Cardim de Alencar Osório, planejaram implantar focos de resistência no sul do País. O plano era subir pelo noroeste do Rio Grande do Sul até Mato Grosso, passando pelo Paraná, tomando quartéis e anunciando a retomada do Poder por Leonel Brizola. O percurso era bem conhecido do grupo de Alberi e era uma área fronteiriça, que margeava a Argentina e o Paraguai, proporcionando rotas de fuga. A CNV ouviu vários desses ex-combatentes.

Com base nesses planos, no dia 26/03/1965, o coronel Cardim liderou algumas pequenas operações militares no extremo noroeste daquele estado, divisa com Santa Catarina e fronteira com a Argentina, entre Três Passos e Tenente Portela. Durante a noite, com o apoio do MR-26, se apossaram da Brigada Militar de Três Passos e do presídio, de onde levaram armas, munição e fardas. Além de deixar a cidade sem comunicação telefônica, uma vez que cortaram os fios da rede, ocuparam uma rádio local, a Difusora, onde o militante Odilon Vieira, leu um manifesto do Coronel Cardim, no qual ele falava em nome das Forças Armadas de Libertação Nacional. Por ser tarde da noite, a locução teve pouca repercussão, com pequena audiência.

Apesar de alguns atropelos, estava em curso o primeiro movimento armado contra a ditadura militar no Brasil. Os grupos rumaram para o Paraná, mas lá já estavam sendo esperados por militares da Força Aérea Brasileira. Houve tiroteio e todos os revoltosos foram capturados, humilhados e presos entre os dias 27 e 28 de março. O Coronel Cardim foi submetido a violentas torturas, mas o Sargento Alberi se juntou às Forças Armadas e foi responsável pela captura e morte de outros vários militantes nos próximos anos. Alberi morreu em 1979, provavelmente como queima de arquivo, como ocorreu com grande parte dos agentes infiltrados.

O efetivo apoio de Brizola também é controverso, mas o fato é que ele foi preso em 06/04/1965, graças a esse episódio, e foi processado perante a Justiça Militar, sendo condenado a oito anos de reclusão.

Toda a região ficou a mercê de uma brutal ação dos agentes do Estado, que, para eliminarem outras possíveis formas de resistência ao golpe, implantaram severas medidas que mudaram completamente a vida dos habitantes daquelas cidades; As prisões arbitrárias para medidas de averiguação tornaram-se frequentes, sendo que inúmeros trabalhadores foram presos em suas residências ou no exercício de suas atividades cotidianas.

“Para que não se esqueça, para que não se repita”.

* Este texto faz parte da campanha de divulgação da II Caminhada do Silêncio pelas Vítimas de Violência do Estado e pela Democracia que foi suspensa e substituída por atos realizados em meio virtual nos dias 31 e 1º de abril de 2020.

Responsável: Eugênia Augusta Gonzaga, procuradora regional da República, mestre em Direito Constitucional e coautora das primeiras ações judiciais contra agentes da ditadura.

Fontes: Relatório Final da CNV e DMV/CEMDP

No dia de hoje, 29 de março

Em 29 de março de 1972, ocorreu o episódio que ficou conhecido como Chacina de Quintino, na zona norte do Rio de Janeiro, que vitimou três integrantes da Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-Palmares), Antônio Marcos Pinto de Oliveira, Lígia Maria Salgado Nóbrega e Maria Regina Lobo Leite de Figueiredo, após uma ação conjunta do DOI-CODI, do DOPS e da Polícia Militar.

A versão oficial tratou o caso como “legítima defesa” em que os agentes de segurança teriam sido recebidos a tiros ao invadirem o “aparelho subversivo” e, já no interior da casa, teriam encontrado os corpos das vítimas.

No entanto, em 2013, a Comissão Estadual da Verdade do Rio de Janeiro (CEV-Rio) pôde desconstruir essa versão. Durante uma diligência ao local, a CEV-Rio coletou depoimentos de vizinhos que estiveram presentes naquele momento e, segundo eles, os agentes chegaram à vila durante a tarde, permanecendo escondidos no terreno em frente à vila. Naquela noite, os moradores foram informados para que não saíssem de suas casas e, em seguida, os agentes iniciaram a ação.

Além desses depoimentos, a CEV-Rio apresentou os documentos utilizados no decorrer da investigação em que foi constatado que não havia vestígios de pólvora nas mãos das vítimas; a partir disso, o núcleo de perícia da Comissão Nacional da Verdade (CNV) confirmou que se tratou de uma execução, ou seja, desconstruindo a versão oficial de que teria ocorrido troca de tiros entre os agentes e as vítimas.

Cumpre destacar, que Wilton Ferreira costumava ser relacionado como a quarta vítima da Chacina de Quintino, porém a CEV-Rio comprovou que seu assassinato ocorreu em local próximo na mesma noite. Wilton cuidava de uma garagem em Cavalcanti, local em que a organização VAR-Palmares mantinha uma oficina mecânica; não era vinculado à militância política e fora recrutado para a função por James Allen Luz – militante que conseguiu fugir da ação das forças de segurança na casa em Quintino.

Segundo a CEV-Rio, a morte de Wilton Ferreira foi associada à Chacina de Quintino porque seu corpo fora transferido ao Instituto Médico Legal (IML) junto às outras vítimas. No dia seguinte à chacina, o DOPS coletou as impressões digitais dos quatro cadáveres transferidos ao IML; dois homens e duas mulheres – o que provocou o equivocado entendimento de que Wilton estava junto aos demais no cerco à casa em Quintino.

Uma importante testemunha foi ouvida pela comissão, Hélio da Silva, integrante da VAR-Palmares, que relatou ter indicado o endereço da oficina durante uma sessão de tortura no DOI-CODI a fim de não denunciar o local do “aparelho” em que os companheiros estavam. Afirmou: “Eu não sabia que o Wilton estava morando lá. Quando a polícia chegou, com o barulho, Wilton veio abrir e recebeu logo uma disparada de tiros, caindo morto”.

Na semana seguinte, no dia 06 de abril de 1972, o coronel Adyr Fiúza de Castro cumprimentou a equipe de agentes que atuou na operação que resultou na morte de quatro pessoas; parabenizando-os pelos “êxitos alcançados na semana em curso”.


O episódio da Chacina de Quintino reflete outras tantas ações violentas organizadas pelos agentes da ditadura militar brasileira, além de corroborar o fato de que as graves violações de direitos humanos foram sistematicamente planejadas e praticadas durante esse período, caindo por terra as justificativas de “excessos individuais” e as versões oficiais apresentadas à época.

 – Antônio Marcos Pinto de Oliveira, presente!

 – Lígia Maria Salgado Nóbrega, presente!

 – Maria Regina Lobo Leite de Figueiredo, presente!

* Este texto faz parte da campanha de divulgação da II Caminhada do Silêncio pelas Vítimas de Violência do Estado e pela Democracia que foi suspensa e será substituída por atos realizados em meio virtual nos dias 31 e 1º de abril de 2020.

Responsável: Eugênia Augusta Gonzaga, procuradora regional da República, mestre em Direito Constitucional e coautora das primeiras ações judiciais contra agentes da ditadura.

Fontes: Relatório Final da CNV e DMV/CEMDP.

Sardinha no Calabouço – Adair Gonçalves Reis

Em plena ditadura militar, estudantes realizam uma passeata contra o preço e a comida do restaurante estudantil Calabouço. Era o dia 28 de março de 1968. Um tiro cala o estudante Edson Luís Lima Souto. A morte do secundarista de dezoito anos consagrou-se como grande ponto de referência das mobilizações estudantis daquele ano. O Rio de Janeiro parou no dia seguinte, na passeata cortejo do enterro do Edson.

A ação de um companheiro foi determinante na construção desse marco histórico. Sardinha, seu sobrenome. Não me recordo de seu primeiro nome. Era da nossa base do PCBR, no Calabouço, da qual eu era o secretário de organização, na época.

Ele me ouvia muito e eu tinha muita preocupação com ele, pois era muito voluntarista, mas um excelente e solidário companheiro. Foi ele que, presente na resistência, durante a programada invasão do restaurante, no entardecer daquele trágico dia, comandou um pequeno grupo de estudantes e em seus braços conduziu o corpo do Edson Luís até a Assembléia Legislativa.

No momento em que eu cheguei no restaurante, a polícia já estava distanciando-se do local. Quando eu soube do ocorrido e que o Sardinha estava à frente daquele feito heróico, parti em disparada para a Assembléia onde começavam a chegar mais estudantes.

Ouvi o relato do companheiro. Começamos a mobilizar mais estudantes do Calabouço e, em paralelo, companheiros da UME, UNE e UBES também passaram a mobilizar os estudantes de escolas e universidades.

Mais um ato de grandeza do Sardinha aconteceu, na Assembléia, perante um famoso advogado que havia nos defendido e nos libertado de uma prisão ocorrida após uma manifestação. Tenho muito respeito por sua memória, pois sempre defendeu presos políticos e foi muito solidário com o grupo de estudantes da FUEC (Frente Unida dos Estudantes do Calabouço) junto com os quais, no dia 19 de janeiro de 1968, fui preso em frente o Edifício Avenida Central, na Av. Rio Branco, no momento em que, com faixas, arrecadávamos doações junto aos transeuntes para conclusão e manutenção do novo galpão construído pelo Estado para o funcionamento do restaurante, uma vez que o histórico Restaurante do Calabouço havia sido demolido. Seu nome: Jurista Sobral Pinto.

O Sobral Pinto chegou ao local, com uma proposta de entrega do corpo do Edson à Ditadura. Tinha como argumento evitar prisões e invasão da Assembléia. A reação do Sardinha foi imediata:o corpo só sairia dali por cima do seu próprio cadáver.

A invasão da repressão somente não ocorreu porque a mobilização foi muito rápida e, imediatamente, havia uma multidão na Assembléia. O ditador de plantão, general Costa e Silva, ainda vacilava sobre os rumos da ditadura e resistia às pressões dos grupos militares mais radicais. Prevaleceu a posição do Sardinha Uma possível negociação das lideranças estudantis que poderia resultar na entrega do corpo à polícia da ditadura foi interrompida.

O resto da noite e da madrugada, passei no ambiente externo, do lado de fora da Assembléia, na maior parte do tempo, na mobilização de companheiros. Tínhamos que manter o maior número possível de pessoas no local.

Vai lá.

O corpo ficou ali.

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Este texto encontra-se na página164 do livro “68 a geração que queria mudar o mundo relatos”, organizado e editado por Eliete Ferrer e publicado no Projeto Marcas de Memória, da Comissão de Anistia do Ministério da Justiça em 2011, na Presidência de Paulo Abrão.

Para ler ou gravar o livro em PDF, acesse aqui:

https://www.plural.jor.br/…/68-a-geracao-que-queria-mudar-o…

No dia de hoje, 25 de março

PARA QUE NÃO SE ESQUEÇA, PARA QUE NUNCA MAIS SE REPITA

Em 25 de março de 1945, nascia Maria Auxiliadora Lara Barcellos, a Dodôra, na cidade de Antônio Dias/MG. Dodôra sobreviveu às inúmeras sessões de tortura física a que foi submetida, mas não conseguiu superar as feridas que lhe fizeram na alma. Ela foi mais uma vítima da política de extermínio da ditadura militar brasileira.

Primogênita entre quatro irmãos, interessou-se desde cedo por ensinar os filhos das classes mais humildes, atuando como professora com apenas 14 anos na zona rural. Mais tarde, aos 20 anos, fez parte de uma geração de mulheres que marcou a entrada em massa nas universidades. Ingressou na Universidade Federal de Minas Gerais para graduar-se em Medicina, impelida pela crença de que “como médica poderia ajudar mais do que como educadora”.

Durante a graduação, trabalhou na área psiquiátrica e no pronto-socorro do Hospital Galba Veloso. No ano de 1968, marcado por grande efervescência dos movimentos opositores à Ditadura Militar, envolveu-se com as atividades do movimento estudantil. Após o AI-5, assim como outros estudantes impedidos de atuar em organizações universitárias, integrou a luta armada. Tornou-se militante do Comando de Libertação Nacional (Colina). Posteriormente, aderiu à Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) e passou a viver na clandestinidade com o companheiro de militância e namorado, Antônio Roberto Espinosa. Mais tarde abrigaram em sua casa o também integrante da VPR, Chael Charles Schreier. Não sabiam que já estavam sendo vigiados.

No dia 21 de novembro de 1969, ouviram de dentro de casa o anúncio de que deveriam se entregar pois estavam cercados. Tentaram resistir à prisão, mas um dos agentes jogou uma bomba de gás pela janela do aparelho, obrigando-os a sair da casa.

Os três foram levados para o quartel da Polícia do Exército, na Vila Militar, onde foram torturados juntos e em separado. Chael foi o que mais apanhou. Como relatou Dodôra, ele era chutado como se fosse um cachorro. Permaneceu 20 horas sob intensa tortura e veio a falecer. No procedimento da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP), consta em um dos documentos que não havia um só lugar no corpo de Chael que não tenha sido maculado: “é uma sequência de hematomas, escoriações, equimoses, sem falar nas fraturas em quase todas as costelas, do lado direito e esquerdo”.

Dodôra, por sua vez, além das torturas físicas foi submetida a toda espécie de sevícias e humilhações de cunho sexual, responsáveis por um intenso trauma que a perseguiu por toda a vida. Ela era a única mulher presente na Vila Militar e, entre as sessões de tortura, ficava exposta nua, presa numa jaula para a contemplação lasciva dos agentes a quem o Estado deu o poder de falarem em seu nome.

Neste ínterim, a família Barcellos soube da prisão de Dodôra e da morte de Chael através de uma notícia da revista Veja. Sua mãe, Dona Clélia, foi imediatamente para o Rio de Janeiro/RJ. mas não pôde ver a filha. Disseram que ela estava presa em lugar não sabido e incomunicável. Durante esse período a família acionou diversos órgãos, mas as informações sobre seu paradeiro eram constantemente negadas.

Além do cárcere na Vila Militar, a militante era levada de um local para outro para ser exibida e interrogada, tendo passado pela Polícia do Exército, pelo Campo de Instruções do Exército, pela Penitenciária de Mulheres de Belo Horizonte e também pelo DOPS onde ficou em uma cela com outros dois companheiros de militância, sendo que os seus algozes ainda tentaram obrigá-la a ter relações sexuais com eles.

A mãe de Dodôra relatou à CEMDP que estes foram os dias mais terríveis de sua vida”. A respeito desses dias, Dodôra escreveu mais tarde: “Foram intermináveis dias de Sodoma. Me pisaram, cuspiram, me despedaçaram em mil cacos. Me violentaram nos meus cantos mais íntimos. […] Foi um tempo sem sorrisos. Um tempo de esgares, de gritos sufocados, um grito no escuro. […] Eu era criança e idealista. Hoje sou adulta e materialista, mas continuo sonhando. Dentro da minha represa. E não tem lei nesse mundo que vá impedir o boi de voar.”

Maria Auxiliadora ficou presa durante cerca de dois anos e depois foi banida pelo Decreto no 68.050, em janeiro de 1971, no episódio do sequestro do embaixador suíço Giovani Enrico Bucher. Espinosa, seu companheiro, ficou no Brasil e seguiu preso até 1979. Eles nunca mais se encontraram.

Banida do Brasil, Dodôra foi para o Chile. Quando aquele país também foi tomado por um golpe militar, em 1973, ela buscou asilo junto à embaixada do México e permaneceu 06 (seis) meses trabalhando como intérprete naquele país. Após esse período, mudou-se para a Europa com a ajuda da Cruz Vermelha. Desembarcou na Bélgica, passou pela França e, finalmente, estabeleceu-se na Alemanha.

Após passar pela cidade de Colônia, onde chegou em 10 de fevereiro de 1974, seguiu para Berlim Ocidental. Por meio de uma bolsa oferecida pelo governo alemão, voltou a dedicar-se ao curso de Medicina e estabeleceu um novo e estável relacionamento amoroso. Sempre que podia participava de documentários e livros que denunciavam a tortura no Brasil.

Sua vida parecia estar o retomando o seu curso, mas Maria Auxiliadora ainda estava consumida pelos traumas e pesadelos constantes. Fez tratamento psiquiátrico, mas não recuperou a paz. Passou a ter crises de amnésia. Apesar das terríveis lembranças, afligia-a tanto o fato de estar longe de seu país, que chegou a solicitar, na Embaixada brasileira na Alemanha, autorização para regressar ao Brasil. Jamais obteve uma resposta oficial.

Aos 30 anos, no dia 1º de junho de 1976, ela se suicidou atirando-se em frente a um trem no metrô de Berlim Ocidental. O governo alemão cobriu os gastos do traslado do corpo para o Brasil, que foi cremado para ser enterrado na cidade de Belo Horizonte /MG.

Pouco tempo depois de sua morte, seus companheiros de exílio alemão fizeram um filme em sua homenagem, När stunden är inne (Dora: quando chegar o momento), de 1978, produzido por Luiz Alberto Barreto Leite Sanz, Reinaldo Guarany (seu companheiro) e Lars Säfström. Maria Auxiliadora ganhou homenagens no Brasil: em Belo Horizonte, dá nome a uma rua no bairro Salgado Filho; em São Paulo, nomeia um Centro de Saúde Sexual e Reprodutiva, conhecido como Casa Ser Dorinha.

Dodôra e sua figura, mostrada em documentários como o Brazil: a Report on Torture (1973) ou Setenta (2013), tornou-se um símbolo feminino de coragem e altivez, que expõe de forma chocante a barbárie e a selvageria dos machos covardes que se revelam em tempos de arbitrariedade e de garantia de impunidade.

– Maria Auxilidora Lara Barcellos, presente!

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Este texto faz parte da campanha de divulgação da II Caminhada do Silêncio pelas Vítimas de Violência do Estado e pela Democracia que foi suspensa e será substituída por atos realizados em meio virtual nos dias 31 e 1º de abril de 2020.

Responsável: Eugênia Augusta Gonzaga, procuradora regional da República, mestre em Direito Constitucional e coautora das primeiras ações judiciais contra agentes da ditadura.

Fonte: Relatório Final da Comissão Nacional da Verdade, Volume III, páginas 1.845 a 1.851.

No dia de hoje, 24 de março

PARA QUE NÃO SE ESQUEÇA, PARA QUE NUNCA MAIS SE REPITA

Em 24 de março de 1979, a família do embaixador aposentado, José Jobim, continuava vivendo um pesadelo. O pacato senhor, de 70 (setenta) anos, havia saído de casa 02 dias antes, após o almoço, para visitar um amigo. Devidamente trajado, com seu terno costumeiro, disse que voltaria logo. E informou o que queria para o jantar. Nunca mais foi visto com vida. Na manhã daquele dia 24, a família foi informada que seu corpo foi encontrado por um gari, pendurado em uma árvore, em um local muito distante de casa. Ele foi mais uma vítima da ditadura, mesmo às vésperas da promulgação da famigerada Lei de Anistia.

Conforme relatado pela Comissão Nacional da Verdade/CNV, José Pinheiro Jobim nasceu em Ibitinga/SP, em 2 de agosto de 1909, e, na juventude, mudou-se para o Rio de Janeiro/RJ. Seu primeiro trabalho foi como jornalista, tendo sido revisor e redator do jornal “A Manhã”, do Rio de Janeiro, e redator do “Diário de Notícias”, de Porto Alegre. Contratado pela Agência Meridional dos Diários Associados, foi redator de “O Jornal” e seu enviado especial à Europa.

Em 1938, com apenas 31 anos, deu início à sua carreira de diplomata. Casou-se em 1944 com Lygia Collor, filha do jornalista e político Lindolfo Collor, então, primeiro titular do Ministério do Trabalho, criado no governo Vargas. Chegou ao cargo de Embaixador em 1959, tendo servido no Equador, de dezembro de 1959 a março de 1962. De volta ao Rio de Janeiro/RJ, tornou-se uma das pessoas de confiança do governo de João Goulart, que conferiu a ele uma função extremamente difícil e sigilosa: negociar com as autoridades paraguaias o processo de consultas sobre o aproveitamento hidrelétrico do rio Paraná, na altura das Sete Quedas, que se transformaria mais tarde na Usina de Itaipu.

Jobim passou a ser recebido no Paraguai com pompas de chefe de Estado. O golpe de 1964 não foi suficiente para afastá-lo dessa função estratégica. Em junho 1966, mesmo servindo em Bogotá, foi destacado para acompanhar um encontro do ministro Juracy Magalhães com o  Presidente Stroessner, ocasião em que foi assinada a “Ata das Cataratas”.

José Jobim acabou sendo designado para servir na Argélia e no Estado do Vaticano, mas nunca deixou de acompanhar a construção de Itaipu, que era o seu “sonho intelectual”, no dizer de sua família. Ao servir no Vaticano, entre os anos de 1968 e 1973, não se dobrou às proibições da ditadura militar e recebia pessoalmente personalidades brasileiras que resistiam a ela, como Dom Helder Câmara. Em 1973, foi removido para Marrocos, e se aposentou em maio de 1974, tendo voltado a residir no Rio de Janeiro/RJ. Foi quando começou a escrever suas memórias, onde pretendia denunciar a corrupção que envolvia Itaipu e sobre a qual possuía vasta documentação.

Assim como outras altas autoridades que não haviam sido cassadas, José Jobim continuou sendo convidado para ocasiões solenes do governo militar. Em março de 1979, estava presente na solenidade de posse do chanceler Saraiva Guerreiro e do presidente Figueiredo. Lá ele comentou com algumas pessoas sobre o livro que estava escrevendo. O senador Gilberto Marinho, que era muito amigo da família, chamou-o num canto e pediu que ele, por favor, parasse de falar sobre aquilo porque as pessoas que ele ia denunciar estavam ali presentes na recepção.

Uma semana depois, ele foi assassinado.

No mesmo dia do desaparecimento, 22 de março, a família registrou a ocorrência na polícia e pediu providências. Na manhã do dia 23, recebeu um telefonema da proprietária de uma farmácia na Barra da Tijuca, que dizia estar com um bilhete entregue por Jobim havia cerca de meia hora. No bilhete, Jobim comunicava que havia sido sequestrado em seu próprio automóvel e estava sendo levado para a Barra da Tijuca. Naquela manhã, o delegado titular da 9ª DP, Hélio Guaíba, esteve na casa da família, soube do telefonema e, segundo a viúva, não tomou nenhuma providência apesar de ter indicações claras de seu paradeiro explicado no bilhete: “logo depois da ponte da Joatinga”.

O cadáver do embaixador foi encontrado às sete da manhã do dia 24 de março, a menos de mil metros da ponte da Joatinga, pendido de uma corda de nylon do galho de uma pequena árvore (suas pernas, curvadas, tocavam o solo), no canteiro central da Avenida 1920, da Barra da Tijuca.

Ênio Silveira, genro de Jobim, compareceu ao local para confirmar a identificação do corpo e ouviu do Delegado Ruy Dourado, bem como do Diretor do Instituto de Criminalística, Dr. Roberto Villarinho, o comentário de que José Jobim teria morrido em outro local, e que depois de sofrer muitas violências físicas, “com requintes de crueldade”, havia sido dependurado naquela árvore para mais uma bárbara simulação de enforcamento.

Um outro parente de Jobim ouviu do Dr. Roberto Blanco dos Santos, que realizou a necrópsia, a afirmação de que a morte não havia sido por enforcamento.

Provavelmente, houve grande celeuma quanto à causa mortis, pois o assento de óbito foi lavrado somente em 2 de abril de 1979, nove dias após a morte, e com a causa indefinida: “A determinação exata da causa da morte depende dos resultados dos exames complementares solicitados”.

Nesse ínterim, a família se deu conta de que a documentação sobre Itaipu havia desaparecido da casa.

Dona Lygia lutou muito para que fosse apurado o homicídio, mas não logrou êxito. Com a sua morte, coube à filha, Lygia Maria Jobim, assumir a responsabilidade pela reparação da memória do pai. Foi ela quem apresentou o caso à CNV, que o incluiu no rol brasileiro de vítimas da ditadura, em 2014. Com esse reconhecimento, a filha pleiteou perante a CEMDP a indenização devida nos termos da Lei 9.140/95. Não obstante o entendimento favorável dos, então, membros da CEMDP, a Advocacia Geral da União (AGU) obstou o pagamento, pois os prazos previstos na Lei 9.140/95 estavam esgotados. Foi redigido um novo parecer pela CEMDP rebatendo os fundamentos da AGU, pois baseados apenas numa interpretação literal da Lei 9.140, mas a AGU não revisou o seu posicionamento.

Sem conseguir receber a indenização pecuniária, Lygia Jobim não desistiu de pedir a reparação moral. Pleiteou à CEMDP a retificação do assento de óbito do pai para constar como causa da morte aquela que foi reconhecida pela CNV, ou seja, a violenta perseguição perpetrada pelo Estado brasileiro durante a ditadura militar, bem como que fosse feito a ela e seus familiares, um pedido formal de desculpas. Este seu pedido, feito no ano de 2016, deu ensejo à edição da Resolução CEMDP 02/2017, que estabeleceu um rito para que a CEMDP pudesse atuar em mais essa frente de reparações.

Graças à persistência e acuidade de Lygia, o assento de óbito de José Jobim foi o primeiro a ser retificado a partir da atuação da CEMDP. O documento foi apresentado no I Encontro Nacional de Familiares promovido pela CEMDP, no dia 04 de dezembro de 2018, oportunidade em que a CEMDP, por sua presidência, apresentou à filha e netos de José Jobim o seguinte pedido de desculpas: “Em nome do Estado brasileiro, no exercício da atribuição de proceder à reparação material e imaterial que é devida aos familiares de mortos e desaparecidos, apresento a vocês, familiares de José Jobim, o mais sincero pedido de desculpas.”

Atualmente, encontram-se suspensas as atividades da CEMDP de retificação de assentos, de realização de encontros de familiares, bem como de apresentação de pedidos de desculpas, mas familiares como as Lygias do Embaixador Jobim não desistem e nem vão desistir de manter viva e íntegra a memória de seus entes queridos.

– José Jobim, presente!

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Este texto faz parte da campanha de divulgação da II Caminhada do Silêncio pelas Vítimas de Violência do Estado e pela Democracia que foi suspensa e será substituída por atos realizados em meio virtual nos dias 31 e 1º de abril de 2020.

Responsável: Eugênia Augusta Gonzaga, procuradora regional da República, mestre em Direito Constitucional e coautora das primeiras ações judiciais contra agentes da ditadura.

Fonte: Relatório Final da Comissão Nacional da Verdade, Volume II, Livro 2.

No dia de hoje, 23 de março

PARA QUE NÃO SE ESQUEÇA, PARA QUE NUNCA MAIS SE REPITA

Em 23 de março de 2013, a Comissão Nacional da Verdade (CNV) realizou uma audiência pública inédita para tratar de um tema incômodo: as relações da ditadura com as empresas privadas do período. O caso abordado foi o da Panair, companhia aérea proibida de voar pelo governo militar em 10 de fevereiro de 1965 e que, semanas depois, teve a falência fraudulentamente decretada. Em meio a tais desgostos, morre o seu sócio principal, Mário Wallace Simonsen, em 24 de março de 1965.

Conforme concluiu a CNV, a aniquilação da Panair foi coordenada por síndicos militares de uma falência atípica e que teve a ativa participação do Serviço Nacional de Informações (SNI), bem como de procuradores especialmente nomeados com esse objetivo.

O empresário Wallace Simonsen, que também era sócio-fundador da TV Excelsior, outra das empresas fechadas pela ditadura, foi um caso isolado no meio empresarial. Este, em sua esmagadora maioria, apoiou totalmente a ditadura militar e também as violações de direitos humanos perpetradas. Algumas empresas não apenas apoiaram como também praticaram tais violações em suas dependências privadas.

Conforme consta do Volume II, do Relatório Final da CNV (Texto 2), os trabalhadores em geral e seus movimentos sindicais foram o alvo primordial do golpe civil-militar de Estado de 1964, pois eles vinham se articulando fortemente desde os anos 50 na busca por seus direitos trabalhistas. No mesmo dia em que o golpe se concretizou, em 1º de abril de 1964, começaram as intervenções nas direções dos sindicatos.

Foram mais de 400 intervenções apenas no ano de 1964, com depredação das respectivas sedes, prisões, torturas e execuções de líderes sindicais. O objetivo era quebrar a espinha dorsal do movimento para beneficiar as empresas e, ao mesmo tempo, impedir que a partir dele se estruturasse algum tipo de resistência à ditadura.

O apoio das empresas ao golpe foi tão ostensivo que criaram o Grupo Permanente de Mobilização Industrial (GPMI) da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), que tinha como principal finalidade a colaboração com as Forças Armadas e Forças Auxiliares na repressão política. Entre os produtos dessa parceria está a instituição da Oban (Operação Bandeirantes), depois transformada em Doi/Codi/SP, que se tornou um dos maiores centros de tortura da ditadura, e inspirou a criação de outros Doi´s (ironia da sigla) nas demais capitais brasileiras, tão violentos quanto o primeiro.

Além de se unirem para recusar emprego (em todo o país) a perseguidos políticos cujos nomes constassem das listas fornecidas pelas forças repressivas, algumas empresas operavam como verdadeiras bases militares. Lúcio Bellentani, ex-empregado da Volkswagen de São Bernardo do Campo, relatou à CNV que: “- estava trabalhando e chegaram dois indivíduos com metralhadora, encostaram nas minhas costas, já me algemaram. Na hora em que cheguei à sala de segurança da Volkswagen já começou a tortura, já comecei a apanhar ali, comecei a levar tapa, soco”. Foram presos no mesmo episódio mais de 20 metalúrgicos, a maioria da Volkswagen e o restante da Mercedes, da Perkins e da Metal Leve.

Os trabalhadores vitimados por esse tipo de repressão ainda lutam para obter reparação moral e material por parte das empresas. Lúcio Bellentani, que era um ícone nessa luta, faleceu em junho de 2019 sem ter realizado seu objetivo.

Em relação aos empresários “assimétricos”, como Wallace Simonsen, a ditadura passou a estrangulá-los economicamente mediante atos de Estado que dificultavam suas atividades e processos de todos os tipos, oriundos de acusações falsas. Além da bizarra falência da Panair e do fechamento da TV Excelsior, pioneira no país na implantação da televisão, promoveram, por exemplo, a interdição dos armazéns das empresas Wasim e Comal, expoentes na exportação de café e o cancelamento de todos os seguros de órgãos do governo realizados pela AJAX Corretora de Seguros, a maior corretora de seguros da América Latina.

A destruição dessas empresas ocorria ao mesmo tempo em que suas concorrentes, apoiadoras do regime, eram beneficiadas, como se deu com a Varig, do empresário Ruben Berta, que assumiu todas as linhas internacionais do país no exato momento em que a Panair foi fechada.

A filha de Mário Wallace Simonsen relatou nessa Audiência Pública de 23 de março de 2013 que, no mesmo dia da morte de seu pai, ela havia dito para ele que nunca mais voltaria ao Brasil, mas “ele olhou nos meus olhos, segurou minhas mãos e disse para que eu amasse o Brasil, pois os homens passam, mas o Brasil fica”.

A lembrança da Panair do Brasil ficou imortalizada em umas das músicas de Milton Nascimento e de Fernando Brant, cujo refrão fala saudosamente dos tempos e das asas da Panair.

– Mário Simonsem, presente!

– Lúcio Bellentani, presente!

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Este texto faz parte da campanha de divulgação da II Caminhada do Silêncio pelas Vítimas de Violência do Estado e pela Democracia que será realizada em São Paulo/SP, no dia 29/03/2020, no Parque do Ibirapuera, que foi suspensa e será substituída por atos realizados em meio virtual nos dias 31 e 1º de abril de 2020.

Responsável: Eugênia Augusta Gonzaga, procuradora regional da República, mestre em Direito Constitucional e coautora das primeiras ações judiciais contra agentes da ditadura.

Fonte: Relatório Final da Comissão Nacional da Verdade, Volume II, Livro 2.

No dia de hoje, 22 de março

PARA QUE NÃO SE ESQUEÇA, PARA QUE NUNCA MAIS SE REPITA

Em 22 de março de 1949, nasceu a valente Dinaelza Soares Santana Coqueiro, em Vitória da Conquista/BA. Entre os anos de 1973 e 1974, agentes do Estado brasileiro tentaram apagá-la da história. É verdade que o seu corpo nunca mais foi visto, mas a luta incessante de Diva Santana, sua irmã, em preservar a memória de Dinaelza, a manteve viva entre nós.

Desde cedo, Dinaelza se mobilizou em defesa do que acreditava. Foi fundadora do grêmio do colégio em que estudava e depois, na universidade, integrou a Comissão Executiva do Diretório Central Estudantil. Aos 21 anos, assumiu o Comitê Estudantil do PCdoB. Além dessas atividades, a jovem Dinaelza trabalhava e frequentava um grupo de estudos de literatura, onde conheceu Vandick Reidner Coqueiro, que se tornou seu marido e também foi morto pelas forças da repressão.

Com 22 anos, graduada em Geografia e casada, era empregada na Transbrasil e ganhava o suficiente para ter uma vida estável e de conforto. Mas, ao lado de Vandick, renunciou a isso e foram para a região da Gameleira juntarem-se à Guerrilha do Araguaia.

Dinaelza, a Maria Dina, tornou-se conhecida pela coragem e capacidade de sobrevivência na mata. Ela teria sido presa em novembro ou dezembro de 1973 e levada para a Casa Azul, em Marabá/PA, um centro de tortura. Antes de ser colocada à força no helicóptero que a levaria, cuspiu no rosto de seu algoz, o Major Curió. Maria Dina ficou dois dias sob tortura na Casa Azul. Há relatos de que estava toda machucada, com gazes nos braços queimados, e foi obrigada a caminhar pela mata em direção à casa de um dos guias do Exército. No caminho, a fizeram se sentar no chão. Apontaram as armas para Maria Dina, que os encarou. Deram início aos tiros e só pararam quando tinham descarregado suas armas. Curió relatou mais tarde, irritado, que a sua “engasgou” naquele momento. O corpo de Maria Dina teria sido enterrado na casa do guia para onde se dirigiam, mas nunca foi encontrado.

Assim que foi editada a Lei de Anistia, em 1979, os familiares dos desaparecidos no Araguaia acreditaram que receberiam notícias de seus filhos. Achavam que eles poderiam estar vivos, ou, pelo menos, alguns deles. Mas apesar da anistia e do malfadado pacto político que preservava torturadores e assassinos, ninguém se lembrou de dizer àquelas famílias que absolutamente todos os jovens que participaram da guerrilha e que ainda estavam desaparecidos haviam sido massacrados.

Diante do silêncio estatal, os familiares fizeram então, em 1980, uma caravana ao local. Diva Santana estava entre eles. Começava ali a sua luta ferrenha pela busca do corpo da irmã. Chegaram de barco em Marabá. O advogado e ex-preso político Paulo Fontelles, mais tarde assassinado por latifundiários pela defesa que fazia de camponeses sem-terra, também estava com eles. Foram recebidos com uma salva de foguetes pelos moradores de Marabá. Deles, ouviram a terrível notícia: não sobrou ninguém vivo.

Mas não bastava executar os jovens, esconder e destruir seus corpos. Era preciso impedir que as famílias continuassem dando trabalho, denunciando o extermínio e clamando pelos corpos. Então esses familiares passaram a ser monitorados pelas Forças Armadas.

Diva Santana relata que a vigilância sobre ela foi tamanha que encontrou arquivos que registravam até conversas suas em bares de Salvador. Mas não se intimidou. Às vezes ficava dias fechada em seu apartamento esperando para sair só depois que tinha certeza de que não havia nenhum veículo suspeito por perto. E, nessas saídas, dedicava-se à sua principal razão de viver. Foi assim que se tornou figura central na construção do Grupo Tortura Nunca Mais e participou de quase todas as caravanas e diligências – oficiais ou não – de buscas de corpos no Araguaia. A partir de 1995, quando a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos/CEMDP foi instituída, acompanhou de perto o seu trabalho e logo foi nomeada membro representante dos familiares, função que ocupa até os dias de hoje, quando voltou a praticar uma verdadeira atividade de resistência, ao lado da também familiar, Vera Paiva.

Que a coragem e persistência das irmãs Dinaelza e Diva inspire muitos jovens e suas famílias a cultivar sempre ideais de justiça, igualdade e solidariedade.

– Dinaelza Soares Santana Coqueiro, a Maria Dina, presente!

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Este texto faz parte da campanha de divulgação da II Caminhada do Silêncio pelas Vítimas de Violência do Estado e pela Democracia que foi suspensa e será substituída por atos realizados em meio virtual nos dias 31 e 1º de abril de 2020.

A imagem que ilustra este texto é de uma performance em homenagem à Maria Dina feita por estudantes da cidade de Argoim/BA.

Responsável: Eugênia Augusta Gonzaga, procuradora regional da República, mestre em Direito Constitucional e coautora das primeiras ações judiciais contra agentes da ditadura.

Fonte: Relatório Final da Comissão Nacional da Verdade, Volume III, páginas 1.578 a 1583.