Adauto Freire da Cruz

No dia 13 de maio de 1979, o cidadão de nome Celestino Alves da Silva morreu de ataque cardíaco, quando durante uma batida policial, acabou sendo detido e espancado na rua. A tensão que gerou o infarto era porque, além da coação que estava sofrendo, ele trazia consigo panfletos de propaganda pela anistia e era clandestino. Celestino era o nome falso que passou a utilizar para fugir da repressão política desde o golpe militar, em 1964. Celestino, na verdade, era Adauto Freire da Cruz.

Nascido na Paraíba (1), filho de camponeses, começou a trabalhar aos 12 anos de idade, em uma indústria de artefatos de couro. Também foi operador de cinema nos municípios de Guarabira, Campina Grande e João Pessoa (PB). Atuou como pequeno fabricante de tintas e como ambulante, vendendo produtos de couro. Teve seu primeiro contato com a literatura marxista em 1946 e, no ano seguinte, ingressou no Partido Comunista do Brasil (PCB). Em 1948, participou das lutas grevistas lideradas pelos trabalhadores da construção civil na cidade de Campina Grande (PB). Em 1949, esteve presente nas greves dos operários têxteis de Rio Tinto (PB) e, em 1952, na luta pelo abono de Natal. Adauto foi preso três vezes: em 1948, por ocasião de uma greve; em 1951, quando panfletava na porta de uma fábrica; e em 1956, por participação em “atividades comunistas”. Casou-se pela primeira vez com Priscila Freire de Lima, com quem teve cinco filhos: Neusa, Edileusa, José, Olena e Heloísa. Em 1959, casou-se pela segunda vez com Terezinha Rodrigues de Araújo Freire, que conheceu em João Pessoa (PB). Mudaram-se para Recife (PE), onde Adauto abandonou o comércio e passou a dedicar-se unicamente às atividades políticas. Foi secretário de organizações de base e de organização municipal do partido. Foi secretário do Comitê Estadual do PCB no estado da Paraíba e, em 1961, foi à Cuba para realizar treinamento de guerrilha. No ano seguinte, desligou-se do PCB e tornou-se membro da Direção Nacional das Ligas Camponesas. Em 1963, passou a viver com Delzuíte da Costa Silva, que veio a ser sua terceira esposa. Em 1964, assumiu o posto de “lugartenente” de Francisco Julião. 

Após o golpe militar, em abril de 1964, Adauto, que era muito visado pela repressão, passou a viver na clandestinidade com nova identidade: Celestino Alves da Silva. Mudou-se para o Rio de Janeiro acompanhado de Delzuíte, com quem se casou usando o nome Celestino e teve dois filhos. A partir de então, toda a documentação da família, inclusive a certidão de nascimento de sua neta, foi lavrada com esse mesmo vício.

No Rio de Janeiro, Adauto e Delzuíte nunca deixaram de se posicionar contra a ditadura militar, sempre que podiam e era seguro. No final dos anos 70, engajaram-se nas campanhas pela anistia ampla, geral e irrestrita. No dia 13 de maio de 1979, ambos estavam voltando para casa, justamente após uma dessas reuniões, quando o ônibus em que estavam foi parado em uma blitz. Os policiais entraram no coletivo e começaram a pedir os documentos de identificação dos passageiros. Quando pediram a Adauto os seus, ele, com medo de apresentar os documentos da clandestinidade, respondeu que os havia esquecido. Para piorar, os policiais viram com eles os panfletos em prol da anistia que carregavam e não tinham tido tempo de esconder. Então os policiais jogaram-no para fora do ônibus e passaram a agredi-lo fisicamente. Adauto começou a respirar com dificuldade, seus lábios ficaram roxos e parou de falar. Ele sofreu um infarto naquele momento. Na certidão de óbito, lavrada em nome de Celestino Alves da Silva, constou que a causa da morte foi “infarto do miocárdio”.

Quando foi publicada a Lei 9.140/95, a viúva Delzuíte pleiteou a indenização ali prevista, mas o seu pedido foi negado porque, para os membros da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP) à época, não tinha ficado clara a relação da morte de Adauto com a repressão. Porém, quando foi instituída a Comissão Nacional da Verdade (CNV), em 2012, o pedido de Delzuíte foi reapresentado e dessa vez foi deferido. 

Além do reconhecimento, de Adauto como vítima da ditadura, a CNV recomendou “a retificação do nome de Adauto Freire da Cruz em sua certidão de óbito” e nos demais documentos da família.

No ano de 2018, a CEMDP começou a colocar em prática as medidas de auxílio às famílias para a retificação dos assentos de óbitos de seus familiares para constar a reais circunstâncias de suas mortes, com base na Resolução CEMDP n. 02/2017. Uma das primeiras a solicitar a retificação foi Dona Delzuíte. Para a ela, a entrega do atestado de óbito, finalmente em nome de Adauto Freire da Cruz, durante o I Encontro de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos, realizado em 04.12.2018, em Brasília/DF, foi um momento de grande emoção. Com base nesse documento, ela recebeu do cartório do Rio de Janeiro uma nova certidão de óbito de Adauto e, a partir disso, pôde providenciar a retificação dos demais documentos de sua família, desde a sua certidão de casamento.

Na ocasião ela disse: “ – finalmente posso pronunciar sem nenhum medo esse nome tão lindo – Adauto –, que eu amo tanto.”

– Adauto Freire da Cruz, presente!

(1)     Cf. Relatório Final da Comissão Nacional da Verdade, Vol. III, pág. 1928 a 1931.

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