Luís Alberto, Míriam e Ezequias

No dia 12 de maio de 1972, o jornal Diário de Pernambuco, noticiou uma suposta vitória da ditadura: – a desarticulação de militantes do PCBR que atuavam em Recife. O que não se noticiou é que essa “operação” foi responsável pela prisão ilegal e tortura de dezenas de pessoas, bem como pelas mortes e ocultação dos corpos de Luís Alberto Andrade de Sá e Benevides, de sua esposa, Miriam Lopes Verbena, e do amigo do casal, Ezequias Bezerra da Rocha.

Os perigosos militantes do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR) que foram desarticulados nada mais eram do que jovens recém-casados, que desejavam apenas ficar longe da repressão política da época para continuar os estudos, ter filhos e viver em paz.

Luís Alberto e Miriam, de fato, eram filiados ao PCBR, porém, uma vez casados, diante do cerco cada vez mais truculento da repressão política, decidiram, em 1972, fugir de Recife/PE. 

Ezequias, por sua vez, nunca viveu na clandestinidade. Entre 1964 e 1969 chegou a ser fichado e investigado porque participou de greves e foi sócio da Sociedade Cultural Pernambucana Brasil-União Soviética. Porém, nenhum fato foi apurado contra ele e, a partir de 1969, não foi mais procurado pelos órgãos da repressão e nem exerceu qualquer atividade política. 

Ezequias era casado com Guilhermina Bezerra da Rocha e também vivia em Recife/PE, onde trabalhava como geólogo e professor de Matemática. Como já informado, não exercia atividade política, mas era amigo do casal Luís Alberto e Miriam. Assim como eles, decidiu se mudar de Recife em 1972, mas não para fugir. O seu plano era ir para Salvador/BA, com Guilhermina, onde faria um curso de pós-graduação em Geofísica.

Entretanto, no dia 08 de março de 1972, emprestou o seu carro para Luís Alberto e Miriam. Eles o utilizaram para ir ao município de Cachoeirinha/PE para Luís Alberto providenciar documentos na Junta de Serviço Militar (JSM) com o nome falso de José Carlos Rodrigues. Eles nunca mais voltaram.

Um relatório do Ministério da Aeronáutica registrou que no dia 09 de março, houve um acidente, na Rodovia que liga Caruaru a Lajes, no qual o casal morreu. Porém, na verdade, as circunstâncias desse acidente, inclusive a data correta de suas mortes, jamais foram esclarecidas e seus corpos nunca foram encontrados. 

Após investigações da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP) e da Comissão Nacional da Verdade (CNV), chegou-se a duas versões para o acidente: a) de acordo com o depoimento de Piragibe Castro Alves, ex-agente, eles teriam sido capturados na estrada e o acidente foi forjado; ou b) conforme Aloísio da Costa Gonçalves relatou à CNV, o veículo do casal foi fechado por uma caminhonete do DOI/CODI do IV Exército e essa foi a causa do acidente, que não foi imediatamente fatal. 

Neste ínterim, no dia 09 de março, a irmã de Miriam, Maria Adozinha, que não exercia atividades políticas, foi sequestrada de dentro de sua própria casa, tendo sido levada para o DOI/CODI do IV Exército, em Recife/PE. Momentos depois, o marido de Adozinha, Aloysio da Costa Gonçalves, também foi levado para o mesmo DOI, onde permaneceu preso por 42 dias. Na ocasião, ele chegou a ser levado para ver os corpos de Luís Alberto e Miriam.

Anos depois, em março de 1998, um dos chefes do DOI/CODI do IV Exército, o coronel Confúcio, teria dito a um conhecido, sobre a morte do casal Luís Alberto e Miriam Lopes: “é verdade, nós acabamos com eles”. Esse mesmo coronel Confúcio Danton foi auxiliar direto do general Vicente de Paula Dale Coutinho, que registrou elogios no prontuário de Confúcio, com destaque para sua atuação à frente da repressão no Nordeste, e o promoveu, em 1973, ao posto de general.

Quando Ezequias soube do suposto acidente, no dia 09 de março, foi voluntariamente até os órgãos policiais de Caruaru/PE para tentar resgatar seu carro, pois nada tinha a esconder. Foi orientado a voltar outro dia. A atenta delegacia de (in)segurança social certamente associou seu nome aos fichamentos do passado e, no dia seguinte, 10 de março, expediu o Pedido de Busca número 12-DSS/72, determinando a “localização e captura de elemento subversivo”, de nome Ezequias Bezerra da Rocha. 

Durante a noite, por volta de 1h00, madrugada do dia 11, Ezequias e Guilhermina foram presos e levados sob custódia DOI/Codi de REcife, que colocou o casal também à disposição do DOPS, da Secretaria de Segurança Pública de Pernambuco. Dessa vez, foi Ezequias que desapareceu.

Relatórios oficiais emitidos nos meses seguintes informaram que, na noite do dia 11, ele foi conduzido para “cobrir um ponto’” e, nesta ocasião, teria sido resgatado por seus “companheiros de subversão” e os órgãos policiais não tiveram mais notícias sobre seu paradeiro. O depoimento de Guilhermina, que também estava presa, narra uma versão bem diferente e, infelizmente, muito mais verossímil. De acordo com ela: 

“Fomos conduzidos para dentro e eu fui posta numa cela enquanto Ezequias foi ao interrogatório. Mas aquilo não era interrogatório, era um verdadeiro massacre aplicado numa pessoa indefesa. De onde eu estava ouvia a pancadaria. Foram horas terríveis. Aquilo parecia mais um pesadelo. Eu queria acordar e não conseguia. Houve momentos em que pensava que o Quias [Ezequias] estava morto, pelo silêncio de dor que se fazia, pois não era possível, tantos bater tanto numa única pessoa. Depois de muito tempo eles pararam de torturá-lo e o colocaram numa cela perto da minha. Quando ele passou por mim, carregado por policiais, parecia um farrapo humano, havia sangue por todas as partes do seu corpo. Não conseguia nem ficar de pé. […] Dormi vencida pelo cansaço. Ao me acordar, procurei imediatamente por ele. Os carcereiros diziam-me simplesmente que não tinha sido preso nenhum Ezequias. Insisti por diversas vezes, porém em vão. Ninguém mais me informou o paradeiro dele. Posso afirmar, categoricamente, que no estado físico em que o vi, ele não tinha condições nem de matar uma mosca, quanto mais fugir ou tomar qualquer outra atitude. Eles mataram o meu querido Quias…”

No dia 12 de março de 1972, a Delegacia de Polícia do município de Escada/PE, encontrou, na barragem do rio Bambu, o corpo de um homem jovem com sinais de tortura, com pés e mãos amarrados, e o encaminhou ao Instituto de Medicina Legal de Recife. 

O caso foi noticiado nos jornais e chegou ao conhecimento dos familiares de Ezequias, que foram imediatamente ao IML/PE. Apesar de insistirem, mostrando que as caraterísticas físicas do corpo relatadas na imprensa eram compatíveis com com as de Ezequias, que estava desaparecido há 48 horas, foram impedidos pelos agentes dos órgãos policiais de retirar ou ver o cadáver. Disseram que aquele corpo era de uma pessoa já identificada. 

Enquanto isso, as famílias de Luís Alberto e Miriam também procuravam por eles. As suas mortes foram confirmadas, mas disseram que eles teriam sido sepultados em Caruaru/PE e que a exumação seria possível somente após cinco anos do sepultamento. No tempo aprazado, em 1977, os familiares tentaram novamente a exumação, mas os restos mortais estavam desaparecidos, inclusive os documentos que poderiam auxiliar a localização dos corpos tinham sido extraviados. 

Já a família de Ezequias teve uma nova pista sobre o paradeiro de seu corpo, no ano de 1991.Eles levaram o caso para ser apreciado pela Comissão de Pesquisa e Levantamento dos Mortos e Desaparecidos Políticos, instituída em Pernambuco, após a redemocratização. Seus peritos fizeram uma perícia datiloscópica para comparar as digitais constantes em documentos pessoais de Ezequias, com as impressões digitais constantes do laudo necroscópico da pessoa encontrada na cidade de Escada (PE). O resultado foi positivo, ou seja, aquele corpo, que estava no IML no dia 12 de março e que foi sonegado aos familiares era, de fato, o de Ezequias. A mesma equipe teve acesso à descrição das lesões causadas por torturas praticadas contra Ezequias ainda em vida o que, portanto, desmontou a falsa versão de fuga produzida pelos órgãos estatais.

Apesar de descobrir a verdade sobre a morte de Ezequias, a família não conseguiu localizar o seu corpo, provavelmente, pelo mesmo motivo pelo qual as famílias de Luís Alerto e Miriam também não conseguiram. 

É que as pessoas enterradas como indigentes na cidade de Recife e na grande maioria das cidades brasileiras têm seus corpos descartados ou eliminados após 03 (três) anos de sepultamento, em flagrante ofensa ao princípio da dignidade humana. Essa situação persiste nos dias de hoje e faz com que continue sendo muito fácil fazer um corpo desaparecer quando a pessoa é enterrada em um cemitério público, sem o conhecimento de seus familiares, por qualquer motivo. E não há nenhuma lei federal que discipline a questão nacionalmente, pois o assunto ainda é comodamente tratado como um tema de interesse apenas local. 

Nas cidades de São Paulo, Campinas e Rio de Janeiro, há ruas nomeadas em homenagem a essas três vítimas da ditadura.

– Ezequias Bezerra da Rocha, presente!

– Luís Alberto Andrade de Sá e Benevides, presente!

– Miriam Lopes Verbena, presente!

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Fonte: Relatório Final da Comissão Nacional da Verdade, Volume III, páginas 881 a 907.

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