No dia de hoje, 20 de março

PARA QUE NÃO SE ESQUEÇA, PARA QUE NUNCA MAIS SE REPITA

Em 20 de março, no ano de 1946, nascia no Rio de Janeiro/RJ, José Carlos Novaes da Mata Machado. Ele foi morto por agentes do DOI/CODI de Recife/PE, na mesma ocasião em que outro estudante, Gildo Macedo Lacerda, foi assassinado. Eles foram presos em dias e locais distintos – Mata Machado no dia 19 de outubro, em São Paulo, e Gildo no dia 22 de outubro, em Salvador –, mas eram perseguidos no mesmo contexto em razão de sua amizade e forma de militância, tanto que foram igualmente transferidos para Recife – outro dos mais violentos DOI´s (ironia da sigla) do país. Lá, os dois foram mortos sob tortura.

Mata Machado era filho de Dona Yedda Novaes e do ex-deputado Edgar de Godoi da Mata Machado. Gildo era mineiro, nascido em Ituiutaba, filho de Dona Justa Macedo e de Seu Agostinho Nunes Lacerda. De diferentes origens, mas com identidade de ideais, eles se conheceram em Belo Horizonte, no final dos anos 60.

Ambos eram muito conscientes e bastante precoces. Começaram seu engajamento político ainda na adolescência. Para se ter uma ideia, quando Gildo era apenas um estudante secundarista, tornou-se presidente do Grêmio Central Machado de Assis, participou da União Estudantil Uberabense (UEU), do Partido Unificador Estudantil (PUE), integrou o Núcleo Artístico de Teatro Amador de Uberaba (NATA) e ainda apresentava programas radiofônicos ligados à comunidade espírita. Em 1966, aos 20 (vinte) anos, mudou-se para Belo Horizonte (MG) para concluir o segundo grau, o que não tinha sido possível antes, em razão de tantas atividades. Porém, ao chegar em Belo Horizonte, foi difícil dar sequência aos estudos formais. Mais uma vez, viu-se impelido a engajar no movimento estudantil e se aproximou da Ação Popular (AP).

Foi quando iniciou sua amizade e ligação política com José Carlos Novaes da Mata Machado, que, nessa época, também com 20 anos, já era presidente do Centro Acadêmico Afonso Pena, da Faculdade de Direito da UFMG, e vice-presidente da UNE. José Carlos seguiu os passos do seu pai, um político militante da esquerda católica, e atuou na Ação Popular (AP). Depois, na Ação Popular Marxista-Leninista (APML).

Em 1968, Gildo e José Carlos, assim como outros milhares de jovens, foram presos no Congresso da UNE em Ibiúna (SP). Esse fato marcaria cada um dos estudantes que foram a Ibiúna, pois, a partir desse dado, ficavam inscritos em uma lista de suspeitos de “subversão” e eram permanentemente vigiados pelos órgãos da repressão política. Como José Carlos possuía uma alta posição na UNE, chegou a ficar oito meses detido no presídio Tiradentes, em São Paulo. Gildo foi liberado em seguida, mas em 1969, foi a vez dele de ser eleito vice-presidente da mesma entidade, o que, aliado ao seu histórico, foi suficiente para fazer dele um procurado pela ditadura.

Após sair do presídio, em 1969, José Carlos casou-se com a companheira de militância, Maria Madalena Prata Soares, da APML, e tiveram um filho em 19 de fevereiro de 1972, chamado Dorival. Foram então morar clandestinamente em Fortaleza/CE, num bairro identificado pela CNV como uma favela. Nesse período, José Carlos trabalhou como comerciário e saiu de cena.

Em 1972, Gildo também foi para a clandestinidade e passou a viver na cidade de Salvador/BA, quando se casou com outra militante, Mariluce Moura. Ela engravidou em 1973, mas Gildo não teve tempo de ver sua filha, Tessa, nascer.

A ditadura não desistiu de procurá-los e, em outubro de 1973, mesmo morando em lugares distintos, foram presos com suas esposas, que também foram torturadas, mas liberadas. Gildo foi preso no quartel do Barbalho, em Salvador/BA, e José Carlos, no Doi/Codi/SP, onde as torturas começaram. Por volta do dia 25 de outubro, os dois foram transferidos para Recife para serem acareados, ou seja, interrogados frente a frente. Mas, em tempos de barbárie, isso significa serem torturados conjuntamente.

Carlúcio Castanha, que esteve preso naquele mesmo período, no Doi/Codi de Recife,  declarou ter presenciado a chegada de Gildo Macedo e de Mata Machado, no dia 26 de outubro, algemados e encapuzados, e as torturas brutais que ambos sofreram. Segundo seu depoimento, os gritos de ambos foram ouvidos a noite inteira. Quando ele próprio, na madrugada do dia 27 de outubro de 1973, foi levado para a sala de interrogatório, sentiu um cheiro forte de vômito, fezes e sangue, e ainda podia ouvir os gemidos de Gildo e de José Carlos. No dia seguinte, Carlúcio foi informado pelo companheiro de cela, Rubens Lemos, que os dois militantes não tinham resistido às torturas.

Rubens Manoel de Lemos era mais um dos militantes políticos que estavam presos. Ele relatou que viu José Carlos da Mata Machado pouco antes de morrer, sangrando pela boca e pelos ouvidos, ao lado de outro militante que parecia morto [provavelmente, Gildo], e ouviu do jovem machucado: “Companheiro: meu nome é Mata Machado. Sou dirigente nacional da AP. Estou morrendo. Se puder, avise aos companheiros que eu não abri nada”.

Há registros oficiais de que no dia 29 de outubro de 1973, os corpos dos dois militantes foram levados ao Instituto Médico-Legal de Pernambuco, pelos sargentos José Mario dos Santos e Francisco de Azevedo Barbosa. Não foi emitida, na época, nenhuma certidão de óbito explicando a causa das mortes, e os corpos dos dois militantes não foram entregues às famílias. Tanto Gildo como José Carlos foram enterrados como indigentes no Cemitério da Várzea, em Recife, em caixão de madeira sem tampa. A família de José Carlos da Mata Machado conseguiu recuperar o seu corpo e sepultá-lo, algumas semanas após a morte. Por sua vez, os restos mortais de Gildo não foram, até o momento, localizados e identificados, a despeito das inúmeras tentativas de Marluce, sua ex-esposa, e de sua filha, Tessa.

A versão dos órgãos de segurança, publicada no jornal – quase sempre mentirosa e dessa vez não foi diferente –, dizia que ambos haviam sido mortos em tiroteio, por um terceiro militante da organização clandestina, de codinome “Antônio”. Essa versão buscou encobrir não só a morte de Gildo e de José Carlos, mas também o desaparecimento de Paulo Stuart Wright, que seria o “Antônio” mencionado na história, e que é mais um desaparecido político da ditadura militar. Essa tentativa de encobrir a morte dos três militantes ficou conhecida como “Teatro de Caxangá”, em alusão ao caráter fantasioso do episódio.

O nome de José Carlos Mata Machado foi dado a uma rua em Belo Horizonte no lugar de sua antiga denominação, Dan Mitrione, que era o nome de um agente norte-americano apoiador da ditadura. Ele esteve no Brasil para ensinar métodos de tortura, sendo posteriormente sequestrado e morto pelo Movimento de Libertação Nacional Tupamaros, no Uruguai. O nome de Gildo Macedo Lacerda foi conferido ao DCE da Universidade de Uberaba e a uma avenida no bairro da Pampulha, em Belo Horizonte/MG.

 – José Carlos Novaes da Mata Machado, presente!

 – Gildo Macedo Lacerda, presente!

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Este texto faz parte da campanha de divulgação da II Caminhada do Silêncio pelas Vítimas de Violência do Estado e pela Democracia que foi suspensa e será substituída por atos realizados em meio virtual nos dias 31 e 1º de abril de 2020.

Responsável: Eugênia Augusta Gonzaga, procuradora regional da República, mestre em Direito Constitucional e coautora das primeiras ações judiciais contra agentes da ditadura.

Fonte: Relatório Final da Comissão Nacional da Verdade, Volume III, páginas 1.389 a 1.398.

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