No dia de hoje, 19 de março

PARA QUE NÃO SE ESQUEÇA, PARA QUE NUNCA MAIS SE REPITA

Em 19 de março de 1947, nascia Pedro Alexandrino de Oliveira Filho, em Belo Horizonte/MG. Ele foi um dos jovens executados na região do Araguaia, aos 27 anos. Assim como na maioria dos casos da Guerrilha do Araguaia, as circunstâncias de sua morte são absolutamente desconhecidas, mas é possível juntar algumas pontas desse quebra-cabeças.

Único filho homem entre três irmãs, perdeu o pai ainda muito jovem, quando tinha 13 anos, e, aos 15 já começou a trabalhar no Banco Hipotecário do Estado de Minas Gerais. Em 1967, mudou-se para São Paulo para estudar e trabalhar e acabou se envolvendo com o movimento estudantil. Em novembro de 1969, aos 22 anos, portanto, já era um perseguido político e retornou para Belo Horizonte. Mesmo assim, não consegui fugir da repressão. Foi preso quando estava na casa de uma de suas irmãs e foi torturado ali mesmo, na frente de suas sobrinhas, ainda crianças. Foi liberado por não haver evidências que o incriminassem. No Natal daquele ano, passou a última ocasião com a sua família e nunca mais voltou. Foi viver na clandestinidade, na região de Gameleira, para integrar-se à Guerrilha do Araguaia do PCdoB com a sua companheira Luiza Augusta Garlippe, a Tuca. Pedro tornou-se o Peri.

Tuca e Peri integraram o Destacamento B da Guerrilha onde faziam atividades rurais e domésticas, trabalhando pela sobrevivência e pelo envolvimento da comunidade em seus ideais políticos. Houve relativa paz entre os anos de 1970 e 1972, pois os soldados da repressão tinham muita dificuldade em encontrar os guerrilheiros graças à hostilidade da mata e à proteção que lhes davam os moradores locais. Entre os/as guerrilheiros/as havia professores/as, enfermeiros/as, farmacêuticos/as, médicos/as que prestavam grande auxílio àquela população que já era muito vulnerável e sofrida. Portanto, os “paulistas”, como eram chamados, eram muito queridos.

Nesse período, Pedro Alexandrino escrevia cartas para sua mãe e irmãs, nas quais externava a sua saudade e o amor pela luta que empreendia. Em uma de suas últimas correspondências escreveu: “Tudo do amanhã está sempre no campo das possibilidades, é de hoje que temos a certeza, é hoje que criamos as condições objetivas para o amanhã”.

Após o insucesso das primeiras expedições, a ditadura modificou sua estratégia de perseguição e, entre os anos de 1972 a 1974, após torturarem as pessoas da região para extrair informações e com soldados treinados a sobreviver na selva, as Forças Armadas redobraram seus esforços no combate à Guerrilha e conseguiram massacrar, um a um, os militantes políticos. O saldo do massacre soma 70 vítimas entre mortos e desaparecidos políticos. Peri foi um dos últimos a morrer.

Em dezembro de 1973, ele estava presente por ocasião do evento que ficou conhecido como “Chafurdo de Natal”. Na manhã do dia 25, a repressão surpreendeu a Comissão Militar da Guerrilha (uma espécie de grupo coordenador) em uma de suas reuniões. Peri foi um dos únicos a conseguir fugir dessa emboscada. Embrenhou-se na mata e, provavelmente em março de 1974, foi encontrado por agentes que o executaram com um tiro na cabeça. Dias depois, seu corpo enrijecido foi visto na Base de Xambioá. Usava apenas uma bermuda jeans e lá foi chutado pelos agentes, que chegaram a abrir o seu tórax com uma faca para, jocosamente, ver se tinha “gordura”… Os corpos de Peri e do camponês Batista, que também foi abatido naqueles dias, foram jogados em um buraco aberto ali mesmo na Base.

Essas informações foram coletadas aqui e ali, ao longo de muitos anos. A história definitiva sobre sua morte e o destino do corpo nunca foram revelados.

Durante os anos em que o Grupo de Trabalho Araguaia fez buscas na região, a base de Xambioá foi escavada em vários pontos, mas não havia sinal de corpos. Foram encontrados, nos buracos lá existentes, cavados em formato de cisternas, apenas objetos: cartuchos de projéteis, frascos de remédios, garrafas de bebida, embalagens, etiquetas e vestimentas típicas de militares. É que, no início de 1975, com a Guerrilha já exterminada, as Forças Armadas deram início à Operação Limpeza sob as ordens do governo Geisel de adotar uma política de sigilo do episódio. Documentos foram queimados, acampamentos desmontados e os corpos retirados de suas covas e queimados. Mas sequer esse fato é admitido pelo Exército, que segue, desse modo, torturando as famílias. Sem a certeza de que os corpos foram destruídos, elas ainda nutrem esperanças de um dia sepultar seus entes queridos.

Quando foi editada a Lei 9.140/95 reconhecendo várias mortes, inclusive a de Pedro Alexandrino, e concedendo indenizações, Diana Maria Piló Alexandrino, mãe de Pedro, recusou a indenização e apresentou ao Estado brasileiro uma única pergunta: – Onde está?

Anos depois, o caso Araguaia foi levado à Corte Interamericana de Direitos Humanos e a família finalmente concordou em receber a indenização pecuniária, que, em razão de inúmeras falhas do governo e da própria CEMDP, foi paga mais de 06 anos depois da condenação.

Em Campinas e Belo Horizonte há ruas com o nome de Pedro Alexandrino.


– Pedro Alexandrino de Oliveira Filho, o Peri, presente!

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Este texto faz parte da campanha de divulgação da II Caminhada do Silêncio pelas Vítimas de Violência do Estado e pela Democracia que foi suspensa e será substituída por atos realizados em meio virtual nos dias 31 e 1º de abril de 2020.

Responsável: Eugênia Augusta Gonzaga, procuradora regional da República, mestre em Direito Constitucional e coautora das primeiras ações judiciais contra agentes da ditadura.

Fonte: Relatório Final da Comissão Nacional da Verdade, Volume III, páginas 1.822 a 1826.

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