No dia de hoje, 09 de março

PARA QUE NÃO SE ESQUEÇA, PARA QUE NUNCA MAIS SE REPITA

09 de março de 1972 foi a data que um relatório oficial do Ministério da Aeronáutica registrou as mortes de Luís Alberto Andrade de Sá e Benevides e sua esposa Miriam Lopes Verbena. De acordo com o relatório, eles teriam morrido em um desastre de automóvel na Rodovia que liga Caruaru a Lajes, em Pernambuco. As circunstâncias do acidente, inclusive a data correta de suas mortes, no entanto, jamais foram esclarecidas e seus corpos nunca foram encontrados. A Comissão Nacional da Verdade (CNV) reconheceu a vinculação do desaparecimento e morte de ambos com a repressão política militar.

Luís Alberto estudou Ciências Sociais no Rio de Janeiro/RJ, onde trabalhou como bancário até se tornar dirigente do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR), em 1968. Perseguido na capital carioca, mudou-se para Recife/PE, onde se casou com Miriam, que também havia se formado em Ciências Sociais e era filiada ao PCBR.

Segundo apurou a CNV, após o casamento, Luís Alberto almejava viver na clandestinidade para fugir da perseguição que sofriam e, no dia 8 de março de 1972, foi ao município de Cachoeirinha/PE, sempre acompanhado por Miriam, para providenciar documentos na Junta de Serviço Militar (JSM) com o nome falso de José Carlos Rodrigues.

Nessa viagem, ocorreu o “acidente” e foi com esse nome falso que sua certidão de óbito foi lavrada. Era uma atitude comum dos agentes da repressão na época: mesmo tendo conhecimento do nome verdadeiro, faziam os registros oficiais das mortes e enterros com os nomes falsos da clandestinidade, o que dificultava a localização dos corpos, pois raramente os familiares tinham conhecimento dos nomes utilizados na militância política.

Iara Xavier Pereira fez investigações sobre o acidente de Luís Alberto e de Miriam, em Pernambuco, para auxiliar o requerimento dos familiares na Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP). Ela elaborou, em 17 de março de 1998, um relatório circunstanciado em que apontou várias contradições nos relatórios oficiais. Por exemplo: não foi informado, nos documentos produzidos sobre o acidente, quem socorreu e quem transportou o casal do local do acidente para o hospital de Caruaru, para onde eles foram levados; não foi encontrado junto aos órgãos de fiscalização de estradas de rodagem, nenhum laudo do acidente automobilístico; testemunhas presentes no hospital afirmaram que o local, em certo momento, ficou repleto de policiais e agentes estatais e que os médicos e profissionais da saúde demonstraram medo e receio de fornecer informações sobre o acidente e a morte das vítimas; no livro de internação do mesmo hospital não foram encontrados registros dos nomes verdadeiros de Luís Alberto e de Miriam Lopes, tampouco do nome falso mencionado.

Logo após o “acidente”, a irmã de Miriam, Maria Adozinha, que não exercia atividades políticas, foi sequestrada dentro de sua própria casa, tendo sido levada para o DOI/CODI do IV Exército, em Recife/PE. Momentos depois, o marido de Adozinha, Aloysio da Costa Gonçalves, também foi levado para o mesmo DOI, onde permaneceu preso por 42 dias. Na ocasião, ele chegou a ser levado para ver os corpos de Luís Alberto e Miriam antes de serem sepultados.

Dois meses após as mortes de ambos, o jornal Diário de Pernambuco, em 12 de maio de 1972, noticiou uma suposta vitória da ditadura: – a desarticulação de militantes do PCBR que atuavam em Recife, presos a partir do “acidente” que vitimou Luís Alberto e Miriam Lopes.

Com base nessa notícia, é possível concluir que talvez eles tenham delatado companheiras e companheiros. Contudo, é certo que, se chegaram a delatar alguém, não lhes cabe nenhum demérito, pois não se pode exigir nenhuma atitude de heroísmo de um ser humano que está sob tortura, principalmente quando a outra pessoa atingida a sua vista é alguém muito amado. Apesar disso, para terem morrido mesmo tendo revelado informações – se é que o fizeram –, é porque foram seviciados de formas inimagináveis.

Há duas versões para o acidente: a) de acordo com o depoimento de Piragibe Castro Alves, ex-agente, para a CEMDP, eles teriam sido capturados na estrada e o acidente foi forjado; ou b) conforme Aloísio da Costa Gonçalves relatou à CNV, o veículo do casal foi fechado por uma caminhonete do DOI/CODI do IV Exército e essa foi a causa do acidente, que não foi imediatamente fatal.

Os familiares informaram à CEMDP e à CNV que tentaram recuperar os restos mortais de Luís Alberto e de Miriam, que tinham sido sepultados em Caruaru/PE, mas a exumação foi negada e seria possível somente após cinco anos do sepultamento. No tempo aprazado, em 1977, os familiares tentaram novamente a exumação, mas os restos mortais estavam desaparecidos, inclusive os documentos que poderiam auxiliar a localização dos corpos tinham sido extraviados.

Segundo apurado, o Cemitério Municipal Dom Bosco de Caruaru – qualquer semelhança com o cemitério Dom Bosco em Perus é ‘mera coincidência’ –, seguindo as regras de outros cemitérios públicos, enterrava esse tipo de vítima sem cortejo ou qualquer honra fúnebre, sob supervisão policial, em cova rasa, à revelia dos familiares. Após 03 ou 05 anos trasladavam tais ossadas ‘especiais’ para valas comuns ou ossários clandestinos, onde os despojos eram destruídos, queimados, amassados por retroescavadeiras, ou simplesmente despejados com carrinhola e pás de cal, para assegurar a rápida decomposição.

Portanto, Miriam e Luís Alberto, que desejavam sair da militância política para viverem juntos e terem filhos em paz, jamais tiveram sequer um túmulo. Nas cidades do Rio de Janeiro e de Campinas, respectivamente, há ruas com os seus nomes.

 – Luís Alberto Andrade de Sá e Benevides, presente!

 – Miriam Lopes Verbena, presente!

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Este texto faz parte da campanha de divulgação da II Caminhada do Silêncio pelas Vítimas de Violência do Estado e pela Democracia que será realizada em São Paulo/SP, no dia 29/03/2020, no Parque do Ibirapuera. É uma adaptação do texto utilizado por ocasião da divulgação do evento do dia 31 de março de 2019.

Autoria: Eugênia Augusta Gonzaga, procuradora regional da República, mestre em Direito Constitucional e coautora das primeiras iniciativas de responsabilização de agentes da ditadura.

Fonte: Relatório Final da Comissão Nacional da Verdade, Volume III, páginas 881 a 897.

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