NO DIA DE HOJE, 4 DE MARÇO

PARA QUE NÃO SE ESQUEÇA, PARA QUE NUNCA MAIS SE REPITA

Em 04 de março de 1970, o capitão Daniel Aguiar dos Santos solicitava a prorrogação da ordem de prisão de Lucimar Brandão Guimarães, de 21 anos. Mas naquele momento, não havia nenhum sentido em mantê-lo preso. Ele estava gravemente ferido, debilitado e até perdido os movimentos dos membros inferiores em razão das repetidas sessões de tortura em “mesa elástica”. Apesar de procurado pela família, as forças de repressão não o liberaram para tratamento adequado e ele faleceu após 05 (cinco) meses de imobilização.

Lucimar Brandão Guimarães nasceu em Lambari/MG e se mudou, na adolescência, para a cidade do Rio de Janeiro, onde foi militante do movimento estudantil secundarista. Logo se integrou aos quadros do Partido Comunista Brasileiro, do Núcleo Marxista Leninista e, posteriormente, à Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-Palmares). Já clandestino, foi preso no dia 26 de janeiro de 1970 e indiciado no Inquérito Policial Militar que havia sido instaurado para investigar as ações da VAR-Palmares.

A Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP) reconheceu a responsabilidade do Estado brasileiro pela morte de Lucimar, no ano de 1997, até mesmo com base na versão oficial. Segundo esta, a morte de Lucimar, em 31 de julho de 1970, teria decorrido de ferimentos sofridos em um acidente envolvendo a viatura que, no dia 1º de fevereiro de 1970, o transportava para outra localidade. Há relatórios no sentido de que, de fato, houve um acidente com uma viatura, onde estariam pelo menos mais 04 pessoas, militares, sendo que estes foram socorridos, mas Lucimar teria sido levado ao hospital apenas horas depois, onde permaneceu imobilizado, devido a fraturas na coluna vertebral. Ou seja: havia absoluta ciência das condições de saúde de Lucimar quando foi pedida a prorrogação de sua prisão.

Porém, essa versão, de que o ferimento de Lucimar teria decorrido de um acidente, foi contrariada por outras pessoas que estavam presas na mesma época. Mara Curtis Alvarenga relatou à Subcomissão para a Prevenção da Discriminação e Proteção às Minorias da Comissão de Direitos Humanos da ONU, em 1974, que Lucimar Brandão foi intensamente torturado na chamada “mesa elástica” e foram estas sessões que o deixaram paralisado até a morte. José Roberto Borges Champs contou que o viu chegar à prisão no dia 28 de janeiro e que ele estava em condições físicas normais. Entretanto, semanas depois, quando também foi levado ao hospital militar, soube que Lucimar estava lá e constatou que ele estava “agonizando” e tinha a “coluna quebrada”. A mãe de Lucimar chegou a visitá-lo no hospital militar e também constatou que ele estava gravemente ferido.

O corpo de Lucimar Brandão Guimarães foi sepultado no cemitério São Francisco Xavier, na cidade do Rio de Janeiro/RJ.

– Lucimar Brandão Guimarães, presente!


Este texto faz parte da campanha de divulgação da II Caminhada do Silêncio pelas Vítimas de Violência do Estado e pela Democracia que será realizada em São Paulo/SP, no dia 29/03/2020, no Parque do Ibirapuera.

Autoria: Eugênia Augusta Gonzaga, procuradora regional da República, mestre em Direito Constitucional e coautora das primeiras iniciativas de responsabilização de agentes da ditadura.

Fonte: Relatório Final da Comissão Nacional da Verdade, Volume III, páginas 465 a 467.

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