NO DIA DE HOJE, 1º DE MARÇO

PARA QUE NÃO SE ESQUEÇA, PARA QUE NUNCA MAIS SE REPITA

Em 1º de março de 1972, os corpos dos jovens Alexander José Ibsen Voerões, de 19 anos, e Lauriberto José Reyes, 26, foram enterrados por suas famílias em caixões lacrados.

Alunos brilhantes, eles ingressaram na USP, em São Paulo/Capital. Lauriberto, na Poli, em 1965, e Alexander em Biologia, em 1970. Assim como tantos/as jovens irrequietos/as daquele período, em que a violência da ditadura se agravava cada vez mais, eles se engajaram muito cedo na luta política e participaram da organização do XXX Congresso da União Nacional de Estudantes (UNE), em Ibiúna, realizado em outubro de 1968. Na ocasião, foram presos/as em torno de 1.000 jovens, entre eles, Lauriberto e Alexander.

Coincidência ou não, dias após a prisão do filho, o pai de Lauriberto morreu subitamente e o filho foi autorizado a ir no enterro, mas escoltado por agentes do DOPS. Pouco tempo depois, praticamente todos/as os/as jovens presos/as em Ibiúna foram liberados, mas todos/as foram fichados/as e monitorados/as dali em diante. Centenas dessas pessoas nunca mais se envolveram em qualquer ato ou reunião política e preservaram suas vidas, mesmo sem saber muito bem o risco que corriam. Porém, bastava que a repressão identificasse o menor movimento rumo a atividades de resistência, para entrarem na lista de pessoas a serem presas, torturadas e até eliminadas.

Alexander, por exemplo, engajou-se ao Molipo, a partir de 1970. Em outubro de 1971, teve sua casa invadida por policiais que apreenderam livros, fotos e diversos documentos pessoais de suas famílias, inclusive escritos em língua estrangeira, que nunca devolveram. Lauriberto, já em 1969, participou do sequestro de um avião e se refugiou em Cuba, mas decidiu voltar ao Brasil em 1971 e também se engajou ao Molipo. Assim como outros/as refugiados/as que retornaram ao Brasil naquele ano, Lauriberto tornou-se um dos alvos mais perseguidos.

O “modus operandi” da ditadura era organizado de modo a perseguir e desmantelar os movimentos de resistência conforme a célula a que pertenciam. Por isso, sendo ambos da mesma organização, o Molipo, e já perseguidos, foram emboscados na mesma ocasião, no dia 27 de fevereiro 1972, por policiais pertencentes ao Esquadrão da Morte na rua Serra de Botucatu, bairro do Tatuapé, Zona Leste de São Paulo/SP.

Segundo a versão oficial, Alexander e Lauriberto teriam sido mortos em tiroteio com os policiais. Mas investigações e pesquisas da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP) sobre o episódio revelaram vários elementos que demostram que a versão oficial não se sustenta, pois, na verdade, eles foram executados.

O suposto tiroteio foi presenciado por moradores/as do local. Segundo seus depoimentos, a emboscada já estava preparada e, quando os rapazes se deram conta, havia policiais por todos os lados. Tentaram fugir e não reagiram, pois sequer estavam armados, ou não tiveram tempo de sacar armas. Isto ignifica que a disparidade de forças era inegável e, se tais “terroristas” estavam cometendo crimes, poderiam ter sido simplesmente presos e processados, mas não era assim que procediam as forças de segurança da ditadura militar e essa segue sendo a conduta de outras forças de segurança na atualidade.

Naquele 27 de fevereiro, um dos jovens foi morto imediatamente e o outro ainda tentou correr, mancando e segurando a perna, quando foi cercado por um Opala branco, onde havia policiais armados de metralhadora, com metade do corpo para fora do carro, atirando. Esses tiros atingiram e mataram na hora um senhor idoso que estava atravessando a rua e depois o rapaz que mancava. Os policiais recolheram imediatamente os corpos dos dois jovens, mas o corpo do transeunte ficou no local por mais de 05 (cinco) horas, aguardando a realização de perícia.

Os corpos de ambos foram liberados dois dias depois para as famílias procederem aos seus enterros, mas sob a ordem de que o fizessem em caixão lacrado. Um outro militante político que estava preso e internado no Hospital Militar de Mandaqui na época relatou ter visto um agente identificado como Capitão José que, com um “sorriso indisfarçável comemorava mais uma captura e morte”, dizendo, enquanto lia um jornal: “Desta vez pegamos gente grande. Lembra dele?” – e lhe mostrou a foto de Lauriberto.

– Alexander José Ibsen Voerões?

– Presente!

– Lauriberto José Reyes

– Presente!

Este texto foi escrito por Eugênia Augusta Gonzaga (procuradora regional da República, mestre em Direito Constitucional, coautora das primeiras iniciativas de responsabilização de agentes da ditadura) e faz parte da campanha de divulgação da II Caminhada do Silêncio pelas Vítimas de Violência do Estado e pela Democracia que será realizada em São Paulo/SP, no dia 29/03/2020, no Parque do Ibirapuera.

Fonte: Relatório Final da Comissão Nacional da Verdade, Volume III, páginas 869 a 877.

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